| África e Brasil Africano |
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Marina de Mello e Souza acaba de publicar um livro precioso, África e Brasil africano. Em formato grande,
ilustrado primorosamente, o volume é resultado, em grande parte, de sua experiência em sala de aula.
Interessada sempre no tema "cultura popular", abordado a partir de uma perspectiva que aproxima história e antropologia,
a professora de História da África da USP tem-se dedicado a estudos sobre a África centro-ocidental (a região da atual Angola) e,
mais especificamente, sobre as maneiras como os africanos incorporaram o catolicismo, com ênfase nos séculos XVII e XVIII.
Em entrevista ao Boletim Ática, a historiadora fala a respeito de suas pesquisas sobre os temas africanos, do melhor aproveitamento
de seu livro em sala de aula e, entre outros assuntos, aborda também a herança africana que compõe corpo e alma do Brasil.
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Boletim Ática: Como se deu sua aproximação com os assuntos africanos?
Marina de Mello e Souza: Depois de concluir o mestrado, continuei pesquisando festas populares e escolhi as
congadas como tema. Ao iniciar as pesquisas para montar um projeto, sugeriram que me dedicasse a estudar a África, pois me
ajudaria a entender as festas afro-brasileiras.
Como na época eu morava em Los Angeles, freqüentei por três anos a biblioteca da Universidade de Los Angeles, lendo sobre a
sociedade brasileira escravista, sobre cultura afro-americana e sobre África, continente que aos poucos fui descobrindo.
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Boletim Ática:
O conteúdo temático de África e Brasil africano é riquíssimo, assim como bastante diversificado.
Como deve ser o melhor aproveitamento do livro em sala de aula?
Marina:
Em grande parte, o livro é resultado da minha experiência em sala de aula. Há um
roteiro que lhe dá uma seqüência lógica e temporal, que percorre uma introdução a algumas sociedades africanas, o tráfico de
escravos (especialmente para o Brasil), a inserção dos africanos e seus descendentes na sociedade brasileira escravista, a
contribuição africana para a formação da nossa sociedade, etc.
O livro pode ser trabalhado nessa seqüência ou destacando-se partes específicas, pois os capítulos também podem ser tomados de
forma independente - mesmo não sendo o mais indicado, pois assim se perde a visão de totalidade unindo África e Brasil,
que é o pano de fundo do livro.
O texto principal é denso, apesar de acessível a um leitor médio, permeado de boxes que esclarecem sobre temas específicos.
As imagens e suas legendas constituem uma terceira possibilidade de leitura, e também servem de ilustração ao texto. Os mapas
trazem todas as localidades mencionadas nos textos e são fundamentais para a melhor compreensão deles.
Acredito que o professor deva familiarizar-se com o livro para então fazer sua opção de como trabalhá-lo com os alunos, em função
da estrutura do seu curso, podendo dar maior ênfase a um ou outro aspecto, conforme seu planejamento didático.
Boletim Ática: Por ser muito nítida a presença africana entre nós, fica facilitada sua compreensão?
Marina: Apesar de estarmos acostumados com a presença do negro na sociedade brasileira, nossa percepção ainda
é cheia de preconceitos. Espero que o livro ajude a percebermos como conhecemos muito pouco sobre a sua real contribuição para
a formação da nossa sociedade - e como sabemos menos ainda sobre as sociedades de origem dos africanos escravizados.
Imagens e informações difundidas regularmente em todo o mundo transmitem uma idéia de dissolução
de parte do continente africano, seja por doenças, pela pobreza ou por disputas políticas, étnicas e religiosas. Como deve ser
sustentada didaticamente a importância milenar da África?
Marina:
A África é parte importante da história da humanidade. O homo sapiens partiu da África para sua
aventura rumo ao aprimoramento; o Egito existiu no norte da África; a Etiópia adotou o cristianismo no século V; no século VII,
árabes, indianos e persas comerciavam na costa oriental da África, onde trocavam ouro e marfim por porcelana chinesa e tecidos
indianos; Cartago, no norte da África, foi província romana; grande parte do ouro que circulava nas rotas do Mediterrâneo, no
início da Idade Moderna, atravessava o Saara em caravanas de camelos, vindo de Tombuctu, às margens do rio Níger; a partir da
exploração da costa atlântica pelos portugueses, mais ouro, agora em Axante, alimentou a economia européia, mas a principal
mercadoria passou a ser os escravos, que construíram os impérios coloniais.
Para nós, brasileiros, a África tem importância especial, sendo juntamente com Portugal uma das grandes matrizes da nossa
sociedade.
Antes de mais nada, é preciso mostrar aos alunos que as imagens que a mídia veicula são um aspecto parcial das realidades,
geralmente aquele que vende jornais e revistas. Veja a imagem que a mídia veicula do Brasil: as guerras dos traficantes, os
massacres de ativistas políticos, a corrupção do Estado, etc. são tomados como a totalidade da realidade. Nós, que vivemos nossas
vidas dia após dia, sabemos ser bem mais complexa e variada essa realidade.
Assim, conflitos étnicos, genocídios, crianças famélicas e aidéticas, líderes corruptos e cruéis certamente fazem parte da
realidade de muitas sociedades africanas, que são também "muito
mais" do que isso. E é esse "muito mais" que tem de ser conhecido, para que possamos ajudar de fato aqueles que
precisam e para que também aprendamos com outras maneiras de viver.
Boletim Ática: O Brasil tende a mascarar essa riquíssima herança na sua formação?
Marina: A herança africana está muitas vezes mascarada, travestida de folclore, de exotismo, de algo marginal e
secundário, frente à precedência das contribuições européias.
A força da ideologia é tamanha que até há pouco tempo o próprio afro-descendente ignorava sua herança cultural africana, tendo
como ideal exclusivo os valores europeus.
Há muito já se percebeu que a grande riqueza cultural e o diferencial do Brasil reside em ser um país mestiço, em que povos
se misturam. Pretos, brancos e amarelos; bantos, iorubas, tupinambás, guaranis, carijós, portugueses, espanhóis, italianos,
japoneses, libaneses e tantos outros.
Enquanto a Europa se desnorteia diante da invasão de africanos e árabes que vão buscar na metrópole aquilo que lhes foi prometido
na época dos grandes impérios - que tomaram conta de suas riquezas e de suas sociedades, e quase nada deixaram em troca
-, nós estamos calejados para viver o contato com a diferença. Mas percebemos pouco essas vantagens, porque ainda
temos preconceitos dentro de nós, dando menos valor às nossas heranças ameríndias e africanas do que às européias.

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| Marina de Mello e Souza |
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