Brasileira de Letras, tendo como antecessor Manuel Bandeira, na qual
permaneceu
até a sua morte, em 4 de agosto de 1994.
O Enredo
O Amanuense Belmiro foi seu livro de estréia,
mineiro que integrou a
geração modernista de 1930. Pertence ao que se poderia chamar o Lado B do
Segundo Tempo
do Modernismo Brasileiro (1930-45), pois não segue o filão principal desse
período, que é o
romance regionalista de preocupação política, como Vidas Secas, São Bernardo
e Fogo Morto.
É, de fato, uma obra dotada de extremo lirismo, retirado de cenas simples do
cotidiano do protagonista. Lirismo de funcionário público (amanuense =
escrevente), profissão mergulhada
no pequeno, no simples, no cotidiano. O político, quando aparece, é de forma
tangencial, principalmente no que se refere aos desenlaces de Redelvim,
amigo comunista de Belmiro.
Belmiro, burocrata solteiro de trinta e oito anos, habitante de Belo
Horizonte, escreve um diário como forma de compensação pela mediocridade de
sua vida pessoal.
Em princípio, pretende relatar o seu passado na pequena Vila de Caraíbas, no
interior mineiro.

Sob um olhar francamente idealizante, ele se dispõe a evocar a grandeza dos
Borbas – família oligárquica da qual é descendente fracassado.
Simultaneamente – rememora o seu louco amor por uma jovem chamada
Camila
(que já havia morrido),
e tudo aquilo que no tempo pretérito representava beleza e poesia.
Contudo, as atribulações do presente acabam subjugando o passado, a tal
ponto
que este surge apenas em momentos esporádicos, como contraponto lírico
às angústias atuais.
A função pública quase nada exige de Belmiro. Assim, pode dedicar-se aos
amigos, às irmãs
mais velhas que vivem com ele, e, principalmente, à sua
própria interioridade,
incessantemente mostrada.
Belmiro cultiva ardente paixão platônica por uma jovem que
o abraçara rapidamente em um
baile de carnaval e depois desaparecera.
Belmiro invoca então o “mito de Arabela”, donzela de
suas leituras infantis,
que vivia em uma torre de castelo e morria por amor.
Esta imagem de uma inatingível deusa feminina, vinda da infância, e da qual
ele jamais se livrou, parece justificar a sua incapacidade de relacionamento
com as mulheres.
Mais tarde ele descobre – através de um amigo – que a moça era real, chamava-se Carmela e pertencia a uma família da elite econômica de Minas.
Apesar das tentativas do amigo em apresentá-lo à jovem, Belmiro, ou por se sentir um velho, ou por inferioridade social, ou por
timidez
recusa-se a conhecer Carmela.
Desta forma acaba, preferindo a mulher ideal à mulher concreta, conforme ele próprio anota em seu diário:

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A Carmela real, inatingível, será de outro, casará, terá filhos. Mas a que construí será sempre
minha, e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora, porque está fora dos domínios do tempo.
Este mergulho na vida interior não impede Belmiro de demonstrar interesse e piedade pelos seres que o circundam, abrindo um foco de ternura
em meio a frieza da pura observação da existência.
Os amigos com os quais se relaciona traduzem o limitado quadro humano e ideológico de uma pequena capital brasileira dos anos 30: Redelvim, o
comunista ingênuo; Silvano, o intelectual simpatizante da ordem e da hierarquia; Jandira, uma espécie de feminista antes do tempo;
Florêncio, um simplório pequeno burguês; Glicério, o jovem burocrata com pretensões literárias e aristocráticas.
No final do romance, Belmiro suspende definitivamente a escrita do diário,
como se de certa
forma a vida não pudesse lhe oferecer mais nada e restasse ao
personagem-narrador apenas o remoer contínuo das coisas já passadas.
Belmiro procede de uma família interiorana e patriarcal, destruída pelas
crises das décadas de
1910 e 1920. É um protagonista inadequado ao mundo urbano.
Sua saída,
melancólica e acomodada, dá-se pela escrita:
“Quem quiser que fale mal da
literatura. Quanto a mim direi que devo a ela minha salvação.
Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico...”
Em todos os amigos, Belmiro descobre valores humanos positivos que
ultrapassam os limites de
suas ideologias, estas sempre mesquinhas. Por isso, gosta deles, se
interessa pelo seu destinos
e em caso de necessidade – vencendo a sua impotência para a ação – os
auxilia.
Quando Redelvim é preso, após a Intentona Comunista, de 1935, o amanuense
coloca em risco a própria carreira pública e mobiliza até um senador para
libertar o amigo.
Belmiro é um liberal ao mesmo tempo cético, ingênuo e impotente para a ação. Vê a vida passando, sem
possibilidades de realizar qualquer coisa de importante. Volta-se então para
a criação de mitos (Carmela, Arabela, Jandira, Camila), com os quais suporta
a existência, ainda que não acredite verdadeiramente neles. e ironiza.
O final do romance remete para um grande vazio.
Esta mesma tendência analítica e introspectiva ressurgiria no outro romance de Cyro dos Anjos, Abdias, em que também sob a fórmula de um
diário o narrador apresenta comentários líricos e reflexivos sobre a sua vida pessoal.
Análise 02
O AMANUENSE BELMIRO E O GÊNERO DIARÍSTICO
Keila Mara Sant’Ana Málaque (UNESP)
O Amanuense Belmiro é romance do tipo reflexivo, auto-consciente e um dos modos pelos quais se revela, em seu interior, a prática da introversão é
através dos questionamentos que envolvem a passagem do estilo memorialístico para o diarístico.
Tal indefinição de gênero é postulada pelo narrador de O Amanuense no início do romance.
Se a proposta inicial era a de escrever memórias, aos poucos Belmiro observa que a escritura vai assumindo os modos e formas típicos do
diário, uma vez que os dados do presente vão dominando os do passado.
É certo que esses não são os únicos gêneros que, de algum modo, estão
envolvidos no romance
em questão.
Vale aqui lembrar que a obra, no passado, teve outra forma. O livro nasceu
de crônicas que Cyro
dos Anjos escrevia para o jornal A Tribuna, em Minas Gerais, no ano de 1933,
as quais o escritor assinava sob o pseudônimo de Belmiro Borba. Mudanças
bastante razoáveis, diga-se de passagem:
o que antes foi crônica, surge em O Amanuense com a intenção de memórias
para terminar em diário, configurando ao final um romance: gênero dentro do
qual cabe de tudo - como sugeriu
Octávio Paz - dado à sua ambigüidade.
Consideraremos, porém, aqui, esses dois gêneros básicos - memórias e diário
- uma
vez que estes são objeto de questionamentos e observações dentro da
própria obra. Para as considerações aqui anotadas, fazemos uso das
colocações de estudiosos do gênero diarístico, tais como Béatrice
Didier e Alain Girard.
É interessante observar, de início, que ambos os gêneros fizeram parte da
prática literária de Cyro dos Anjos. Exercitou-se no diário em O Amanuense
Belmiro e nas memórias
em A menina do Sobrado.
Essas duas formas - diário e memórias - de algum modo, parecem se tocar.
Afirmam os estudiosos do gênero que o diarista é muito sensível ao prestígio
das lembranças e
às tentações das memórias, consagrando-se, muitos deles, em ambas as formas.
Um dos aspectos diferenciais entre o memorialista e o diarista é que o
diarista não termina sua obra. É, todo tempo, um texto em transformação.
Permanecendo inconclusa, ela haverá de ter sempre o caráter de fragmento.
Enquanto
o memorialista é capaz de ver a vida como um todo, o diarista apenas
transmite o seu dia-a-dia.
O segundo aspecto diz respeito à impossibilidade de um fecho conclusivo no
diário. Afirma Paul Ricouer que um fecho não conclusivo convém a uma obra
que levanta de propósito um problema
que o autor considera insolúvel, colocando em relevo o caráter interminável
da
temática da obra inteira.
Ainda um outro aspecto apontado pelos estudiosos do gênero é que, ao
contrário do memorialista,
o diarista caracteriza-se por não ter obtido êxito na condução de sua vida.
O memorialista tem o caráter de vencedor, mesmo passando por combates,
enquanto o diarista é sofredor, vive sob
o signo da impotência.
Ainda um terceiro aspecto que faz do diário um gênero apropriado para ser
utilizado em um
contexto de narrativa moderna é a liberdade que o caracteriza.
Diferentemente das memórias, o diário não tem obrigação de continuidade. O
diarista pode fazer
interrupções e, como escrita do dia-a-dia, tem a liberdade de escrever o que
quiser na ordem em
que desejar. Não precisa se preocupar com a coerência de um enredo ou com a
lógica da narrativa.
O diário,
aparentemente, se apresenta como linguagem representativa
da realidade, de uma experiência vivida. No entanto, toda a experiência nele
retratada, longe de
ser experiência real é única e exclusivamente experiência de linguagem.
A recusa do gênero romance aponta para o sentimento de inferioridade ou
impotencialidade que persegue o diarista, conforme abordamos acima.
O gênero romance possui qualquer coisa de grandioso, e Belmiro não acredita
que possa sair
de si nada dessa natureza. Já o diário, pelo menos aparentemente,
apresenta-se como gênero
mais fácil, apropriado para iniciantes.
Nesse sentido, a expressão que o protagonista utiliza para traduzir a si
próprio em relação à sua origem familiar - “fruto chocho de um ramo
vigoroso” - poderia também ser extrapolada para
a relação entre as duas formas: diário e romance.
A opção pelo diário, em O Amanuense Belmiro, mostra-se também coerente com o
herói
moderno - ou o anti-herói: herói nulo, a própria “coordenada do vazio”,
indivíduo sem força
alguma diante do mundo.
É próprio da literatura moderna ter personagens centrais que são mais
vítimas do que agentes.
O tom final do diário de Belmiro é fúnebre. O último capítulo parece
conter o suspiro final
(“...a vida parou e nada há mais por escrever”). Paralela á morte
da experiência
apresenta-se a morte da escrita.
Talvez Belmiro não contasse com a possibilidade de
vida e romance - assim como Fênix -
renascerem das cinzas.
Produção Literária
Romances
O amanuense Belmiro (1937)
Abdias (1945)
Montanha (1956)
Ensaios
A Criação Literária (1954)
Memórias
Explorações no Tempo (1963)
A Menina do Sobrado (1979)
Poesia
Poemas Coronários (1964)
Fontes de Referências
http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno11-12.html
http://educaterra.terra.com.br/literatura/romancede30/2003/06/06/000.htm
Bibliografia
ANJOS, Cyro dos. O Amanuense Belmiro. 12ª ed. Rio Janeiro: José Olímpio, 1989.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética. São Paulo: Hucitec, 1988.
BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. São Paulo: Perspectiva, 1970.
BRADBURY, Malcolm, FLETCHER, John. Modernismo: Guia Geral. Trad. de Denise
Bottmann. São Paulo: Companhiadas Letras, 1989.
COELHO, Nelly Novaes. O Amanuense Belmiro. In. O Ensino da Literatura. São Paulo:
F.T.D., 1966.
DIDIER, Béatrice. Le Journal Intime. Paris: PUF, 1976.
GIRARD, Alain. Le Journal Intime. Paris: PUF, 1963.
ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte. In. Meditaciones del Quijote.
Buenos Aires: Espasa Calpe, 1942.
RICOEUR, Paul. A configuração do tempo na narrativa de ficção. In. Tempo e narrativa. v. II. Campinas: Papirus, 1995.
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