Amanuense Belmiro
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O Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos
Fontes*

O amanuense Belmiro é um texto em que a fineza psicológica e a captação amável da realidade atingem um
nível incomum face aos demais relatos da década de 1930.

Cyro dos Anjos é mineiro de Montes Claros, Minas Gerais, filho
de um fazendeiro-professor e de uma mulher igualmente ilustrada que lhe possibilitaram uma educação qualificada. Fez seus estudos secundários e, posteriormente, mudou-se para Belo Horizonte e bacharelou-se em Direito. Entrou na vida burocrática ocupando cargos importantes na administração estadual mineira.
Como intelectual conviveu com a geração de Carlos Drummond de Andrade, João Alphonsus e outros escritores de peso.

Em 1937 lançou a sua mais importante obra, O amanuense Belmiro.
Em 1946, transferiu-se para o Rio de Janeiro, sempre exercendo funções burocráticas elevadas, agora na administração federal.
Passou um ano no México regendo a cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade Autônoma. Exerceu idêntica função na Universidade de Lisboa.
Ao voltar para o Brasil foi subchefe do Gabinete Civil do governo JK e, mais tarde, professor na Universidade de Brasília e membro do Tribunal de Contas
do Distrito Federal. Morreu no Rio de janeiro em 1994.

Cyro Versiani dos Anjos é colocado pelos entendidos do negócio entre a
segunda geração modernista. Foi o romancista mais sutil e poético da geração
de 30. Em meio a um conjunto de obras de denúncia social e impiedosos
registros das contradições brasileiras, os romances deste autor mineiro – sobremodo O Amanuense Belmiro – destacam-se pelo lirismo e
pela delicadeza de traços.

Cyro dos Anjos elegeu-se em 1969 para a cadeira nº 24, na Academia

 Brasileira de Letras, tendo como antecessor Manuel Bandeira, na qual permaneceu
até a sua morte, em 4 de agosto de 1994.

O Enredo

 

O Amanuense Belmiro foi seu livro de estréia, mineiro que integrou a
geração modernista de 1930. Pertence ao que se poderia chamar o Lado B do Segundo Tempo
do Modernismo Brasileiro (1930-45), pois não segue o filão principal desse período, que é o
romance regionalista de preocupação política, como Vidas Secas, São Bernardo e Fogo Morto.

É, de fato, uma obra dotada de extremo lirismo, retirado de cenas simples do cotidiano do protagonista. Lirismo de funcionário público (amanuense = escrevente), profissão mergulhada
no pequeno, no simples, no cotidiano. O político, quando aparece, é de forma tangencial, principalmente no que se refere aos desenlaces de Redelvim, amigo comunista de Belmiro.

Belmiro, burocrata solteiro de trinta e oito anos, habitante de Belo Horizonte, escreve um diário como forma de compensação pela mediocridade de sua vida pessoal.
Em princípio, pretende relatar o seu passado na pequena Vila de Caraíbas, no interior mineiro.
Sob um olhar francamente idealizante, ele se dispõe a evocar a grandeza dos
Borbas – família oligárquica da qual é descendente fracassado.
Simultaneamente – rememora o seu louco amor por uma jovem chamada
Camila  (que já havia morrido), e tudo aquilo que no tempo pretérito representava beleza e poesia.
Contudo, as atribulações do presente acabam subjugando o passado, a tal ponto
que este surge apenas em momentos esporádicos, como contraponto lírico
às angústias atuais.

A função pública quase nada exige de Belmiro. Assim, pode dedicar-se aos amigos, às irmãs
mais velhas que vivem com ele, e, principalmente, à sua própria interioridade,
incessantemente mostrada.

Belmiro cultiva ardente paixão platônica por uma jovem que o abraçara rapidamente em um
baile de carnaval e depois desaparecera. Belmiro invoca então o “mito de Arabela”, donzela de
suas leituras infantis, que vivia em uma torre de castelo e morria por amor.

Esta imagem de uma inatingível deusa feminina, vinda da infância, e da qual ele jamais se livrou, parece justificar a sua incapacidade de relacionamento com as mulheres.

Mais tarde ele descobre – através de um amigo – que a moça era real, chamava-se Carmela e pertencia a uma família da elite econômica de Minas. Apesar das tentativas do amigo em
apresentá-lo à jovem, Belmiro, ou por se sentir um velho, ou por inferioridade social, ou por
timidez recusa-se a conhecer Carmela.
Desta forma acaba, preferindo a mulher ideal à mulher concreta, conforme ele próprio
anota em seu diário:

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A Carmela real, inatingível, será de outro, casará, terá filhos. Mas a que construí será sempre
minha, e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora, porque está fora dos
domínios do tempo.

Este mergulho na vida interior não impede Belmiro de demonstrar interesse e piedade pelos seres que o circundam, abrindo um foco de ternura em meio a frieza da pura observação da existência.

Os amigos com os quais se relaciona traduzem o limitado quadro humano e ideológico de uma pequena capital brasileira dos anos 30: Redelvim, o comunista ingênuo; Silvano, o intelectual simpatizante da ordem e da hierarquia; Jandira, uma espécie de feminista antes do tempo;
Florêncio, um simplório pequeno burguês; Glicério, o jovem burocrata com pretensões
literárias e aristocráticas.

No final do romance, Belmiro suspende definitivamente a escrita do diário, como se de certa
forma a vida não pudesse lhe oferecer mais nada e restasse ao personagem-narrador apenas o remoer contínuo das coisas já passadas.


Belmiro procede de uma família interiorana e patriarcal, destruída pelas crises das décadas de
1910 e 1920. É um protagonista inadequado ao mundo urbano.
Sua saída, melancólica e acomodada, dá-se pela escrita:

“Quem quiser que fale mal da literatura. Quanto a mim direi que devo a ela minha salvação.
Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico...”

Em todos os amigos, Belmiro descobre valores humanos positivos que ultrapassam os limites de
suas ideologias, estas sempre mesquinhas. Por isso, gosta deles, se interessa pelo seu destinos
e em caso de necessidade – vencendo a sua impotência para a ação – os auxilia.
Quando Redelvim é preso, após a Intentona Comunista, de 1935, o amanuense coloca em risco a própria carreira pública e mobiliza até um senador para libertar o amigo.

Belmiro é um liberal ao mesmo tempo cético, ingênuo e impotente para a ação. Vê a vida passando, sem possibilidades de realizar qualquer coisa de importante. Volta-se então para a criação de mitos (Carmela, Arabela, Jandira, Camila), com os quais suporta a existência, ainda que não acredite verdadeiramente neles. e ironiza.

 O final do romance remete para um grande vazio.

Esta mesma tendência analítica e introspectiva ressurgiria no outro romance de Cyro dos Anjos, Abdias, em que também sob a fórmula de um diário o narrador apresenta comentários líricos e reflexivos sobre a sua vida pessoal.

Análise 02


O AMANUENSE BELMIRO E O GÊNERO DIARÍSTICO

Keila Mara Sant’Ana Málaque (UNESP)

O Amanuense Belmiro é romance do tipo reflexivo, auto-consciente e um dos modos pelos quais se revela, em seu interior, a prática da introversão é através dos questionamentos que envolvem a passagem do estilo memorialístico para o diarístico.

Tal indefinição de gênero é postulada pelo narrador de O Amanuense no início do romance.
Se a proposta inicial era a de escrever memórias, aos poucos Belmiro observa que a escritura
vai assumindo os modos e formas típicos do diário, uma vez que os dados do presente vão
dominando os do passado.

É certo que esses não são os únicos gêneros que, de algum modo, estão envolvidos no romance
em questão.

Vale aqui lembrar que a obra, no passado, teve outra forma. O livro nasceu de crônicas que Cyro
dos Anjos escrevia para o jornal A Tribuna, em Minas Gerais, no ano de 1933, as quais o escritor assinava sob o pseudônimo de Belmiro Borba. Mudanças bastante razoáveis, diga-se de passagem:

 o que antes foi crônica, surge em O Amanuense com a intenção de memórias para terminar em diário, configurando ao final um romance: gênero dentro do qual cabe de tudo - como sugeriu
Octávio Paz - dado à sua ambigüidade.

Consideraremos, porém, aqui, esses dois gêneros básicos - memórias e diário - uma
vez que estes são objeto de questionamentos e observações dentro da própria obra. Para as considerações aqui anotadas, fazemos uso das colocações de estudiosos do gênero diarístico, tais como Béatrice Didier e Alain Girard.

É interessante observar, de início, que ambos os gêneros fizeram parte da prática literária de Cyro dos Anjos. Exercitou-se no diário em O Amanuense Belmiro e nas memórias
em A menina do Sobrado.

Essas duas formas - diário e memórias - de algum modo, parecem se tocar.
Afirmam os estudiosos do gênero que o diarista é muito sensível ao prestígio das lembranças e
às tentações das memórias, consagrando-se, muitos deles, em ambas as formas.

Um dos aspectos diferenciais entre o memorialista e o diarista é que o diarista não termina sua obra. É, todo tempo, um texto em transformação. Permanecendo inconclusa, ela haverá de ter sempre o caráter de fragmento.
Enquanto o memorialista é capaz de ver a vida como um todo, o diarista apenas transmite o seu dia-a-dia.

 O segundo aspecto diz respeito à impossibilidade de um fecho conclusivo no diário. Afirma Paul Ricouer que um fecho não conclusivo convém a uma obra que levanta de propósito um problema que o autor considera insolúvel, colocando em relevo o caráter interminável da temática da obra inteira.

Ainda um outro aspecto apontado pelos estudiosos do gênero é que, ao contrário do memorialista,
o diarista caracteriza-se por não ter obtido êxito na condução de sua vida. O memorialista tem o caráter de vencedor, mesmo passando por combates, enquanto o diarista é sofredor, vive sob
o signo da impotência.

Ainda um terceiro aspecto que faz do diário um gênero apropriado para ser utilizado em um
contexto de narrativa moderna é a liberdade que o caracteriza.

Diferentemente das memórias, o diário não tem obrigação de continuidade. O diarista pode fazer
interrupções e, como escrita do dia-a-dia, tem a liberdade de escrever o que quiser na ordem em
que desejar. Não precisa se preocupar com a coerência de um enredo ou com a lógica da narrativa.

O diário, aparentemente, se apresenta como linguagem representativa
da realidade, de uma experiência vivida. No entanto, toda a experiência nele retratada, longe de
ser experiência real é única e exclusivamente experiência de linguagem.


A recusa do gênero romance aponta para o sentimento de inferioridade ou impotencialidade que persegue o diarista, conforme abordamos acima.
O gênero romance possui qualquer coisa de grandioso, e Belmiro não acredita que possa sair
de si nada dessa natureza. Já o diário, pelo menos aparentemente, apresenta-se como gênero
mais fácil, apropriado para iniciantes.
Nesse sentido, a expressão que o protagonista utiliza para traduzir a si próprio em relação à sua origem familiar - “fruto chocho de um ramo vigoroso” - poderia também ser extrapolada para
a relação entre as duas formas: diário e romance.

A opção pelo diário, em O Amanuense Belmiro, mostra-se também coerente com o herói
moderno - ou o anti-herói: herói nulo, a própria “coordenada do vazio”, indivíduo sem força
alguma diante do mundo.
É próprio da literatura moderna ter personagens centrais que são mais vítimas do que agentes.


O tom final do diário de Belmiro é fúnebre.  O último capítulo parece conter o suspiro final
(“...a vida parou e nada há mais por escrever”). Paralela á morte da experiência
apresenta-se a morte da escrita.

 Talvez Belmiro não contasse com a possibilidade de vida e romance - assim como Fênix -
renascerem das cinzas.

Produção Literária

Romances
O amanuense Belmiro (1937)
Abdias (1945)
Montanha (1956)

Ensaios
A Criação Literária (1954)

Memórias
Explorações no Tempo (1963)
A Menina do Sobrado (1979)

Poesia
Poemas Coronários (1964)



Fontes de Referências


http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno11-12.html

http://educaterra.terra.com.br/literatura/romancede30/2003/06/06/000.htm


Bibliografia


ANJOS, Cyro dos. O Amanuense Belmiro. 12ª ed. Rio Janeiro: José Olímpio, 1989.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética. São Paulo: Hucitec, 1988.

BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. São Paulo: Perspectiva, 1970.

BRADBURY, Malcolm, FLETCHER, John. Modernismo: Guia Geral. Trad. de Denise
Bottmann. São Paulo: Companhiadas Letras, 1989.

COELHO, Nelly Novaes. O Amanuense Belmiro. In. O Ensino da Literatura. São Paulo:
F.T.D., 1966.

DIDIER, Béatrice. Le Journal Intime. Paris: PUF, 1976.

GIRARD, Alain. Le Journal Intime. Paris: PUF, 1963.

ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte. In. Meditaciones del Quijote.
Buenos Aires: Espasa Calpe, 1942.

RICOEUR, Paul. A configuração do tempo na narrativa de ficção. In. Tempo e narrativa. v. II. Campinas: Papirus, 1995.

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