O Ateneu
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O Ateneu
Raul Pompéia
Fontes*
O Ateneu apóia-se numa experiência colegial. Já adulto, ele
relata, num tom de pessimismo, os episódios emocionalmente
mais marcantes, mais traumatizantes, vividos no Ateneu,um internato para meninos

Nascido em 1863, em Jacuecanga (Angra dos Reis-RJ), a vida de Raul Pompéia foi marcada pela angústia e alguns desajustes de ordem emocional.
Encerra-se, em 1895, com apenas 32 anos de idade,
suicidando-se com um tiro no coração.
Antes de morrer, escreveu: “À Notícia ( um jornal da época) e ao Brasil declaro que sou homem de honra”.
Como observa o Prof. Délson Gonçalves Ferreira em estudo

sobre O Ateneu, Raul Pompéia “era de uma honestidade mórbida. E sua morte não foi apenas
um fim, mas o meio de agredir a sociedade e seus desafetos: agressão e desabafo catártico”.
Ofendido num artigo de Olavo Bilac (1892), desafiou-o para um duelo à espada que não
chegou a haver.

Posteriormente foi atacado por Luís Murat num artigo com insinuações que maculavam a sua honra. Foi a gota d’água para o suicídio já acalentado.
Era um ciclotímico que a neurose arrastou, fatalmente, para o próprio extermínio.

Esteve, como aluno interno, desde os dez anos, no Colégio Abílio, cujo diretor e proprietário era Abílio César Borges, Barão de Macaúbas.

Produção Literária


Raul Pompéia é famoso na Literatura Brasileira exatamente com O Ateneu (1888), que a
crítica elegeu como sua obra-prima.
Talvez por ser romance super-elogiado, o resto da sua obra tenha ficado à sombra,
sendo pouco conhecida:
Uma tragédia no Amazonas (1888), escrita aos quinze anos;
Canções sem metro (1900), publicada postumamente, onde se confundem as fronteiras de verso e prosa, ao gosto do estilo simbolista; e
 As jóias da Coroa (1882), romance publicado em folhetos da “Gazeta de Notícias”, no qual
o autor satiriza a monarquia.

A Obra

Escrito em primeira pessoa e chamado pelo autor de “Crônica de saudades”, O Ateneu,
ultrapassa essa dimensão auto biográfica por sua qualidade literária. Classifica-se como um “romance de formação”, isto é, um romance que narra a passagem da mente infantil para a
adulta, e tem como mola propulsora, como fio de meada, a memória de Sérgio, o narrador-personagem.

O Ateneu apóia-se numa experiência colegial. Já adulto, ele relata,num tom de pessimismo, os episódios emocionalmente mais marcantes, mais traumatizantes, vividos no Ateneu,um internato para meninos, ao longo dos dois anos em que foi aluno do Ateneu, constituindo um registro amargo dessa época escolar.
A excelência da escola, dirigida pelo severo pedagogo Aristarco Argolo de Ramos, no Rio de Janeiro, era conhecida nacionalmente. Por isso, tinha em suas classes alunos provenientes de respeitáveis famílias cariocas e também de outros estados.

Tendo por tema central o drama da solidão, o desajuste do indivíduo num ambiente que lhe é hostil. O Ateneu compõe-se de doze capítulos que se assemelham a uma sucessão de quadros, não subordinados necessariamente entre si.
Mais do que relatar episódios acontecimentos ou ações, tais quadros relatam as impressões, as sensações que deixaram na alma Sérgio, seja em suas tentativas inúteis e mal-sucedidas de encontrar amigos, seja no amor platônico que dedica a Ema, a esposa de Aristarco.

Essas duas faces da obra – a de desenvolvimento do interior do narrador-personagem e a de denúncia de todo um sistema educativo – são exemplos de como se reúnem tendências literárias opostas, pode-se dizer conflitantes: de um lado a tendência impressionista (e podemos acrescentar expressionista, simbolista, na medida em que convivem) e, de outro, uma tese a ser defendida,
bem à moda naturalista.


Surgido pela primeira vez em 1888, no Gazeta de Notícias, O Ateneu é um dos romances mais curiosos da Literatura Brasileira, pois escapa a qualquer classificação rígida de periodização literária.

A data de sua publicação o coloca no Realismo. De fato, possui fortes afinidades com tal escola,
já que apresenta uma característica marcante desse momento estético: a preocupação em criticar
a sociedade num tom perpassado de pessimismo. No entanto, há inúmeros desvios que o
impedem de ser um romance puramente realista.

Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a obra é memorialista. Seu narrador, Sérgio, apresenta
suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu. Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada objetividade e imparcialidade do
Realismo-Naturalismo.

Além disso, não se deve esquecer que Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro.
Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.

Reforça ainda mais essa subjetividade a forte aproximação que O Ateneu estabelece com outra escola literária, o Impressionismo.
De fato, obedecendo a esse estilo, não há o relato exato e documental de fatos do passado.
Raul Pompéia encaminha-se inúmeras vezes para a fixação de um momento, de um clima, de uma atmosfera perdida no passado. Ao invés de contar uma história, muitas vezes preocupa-se em
relatar uma seqüência de impressões, sensações subjetivas que marcaram o narrador a ponto de atravessar o tempo e serem os elementos mais nítidos de sua memória.

No entanto, quando se mostra finca nos postulados realistas, o romance mostra um poder de
crítica bastante eficaz e tudo de forma criativa, pois se faz por meio de um jogo entre o microcosmo (escola) e o macrocosmo (sociedade). Ou seja, a escola é um reflexo da sociedade, bastando para o autor, portanto, para criticar esta, apenas descrever as relações que se estabelecem naquela.

O ataque mais chamativo se estabelece em relação ao sistema educacional, representado na
figura do Dr. Aristarco, diretor e dono do colégio. Além de ele se mostrar alguém bastante vaidoso, egocêntrico e autoritário, dotado de uma linguagem altissonante e retórica (já que a moralidade e
a firmeza de caráter que anuncia em sua escola de fato não se realizam), chama a atenção a
confusão que estabelece entre escola e empresa.

Magistral é o primeiro capítulo na realização dessa crítica. Vê-se um narrador que, abusando da ironia, apresenta Aristarco preocupado em pintar o colégio como um negociante preocupado com
as aparências de sua venda ou mercearia. Não é à toa que o vocabulário usado nesses trechos é típico de estabelecimentos comerciais. Ademais, o tratamento dado aos alunos é diferenciado
muitas vezes pelo poder econômico.

Além disso, avassaladora é a descrição do diretor dedicando parte do dia ao livro de
contabilidade da escola.

Note, por fim, como o vocabulário pomposo e retumbante vai-se opor à decadência que grassa na escola, o que reforça a hipocrisia dominante não só no colégio, mas na sociedade, em que o ideal defendido mostra-se gritantemente diferente do real praticado.
Pode-se ainda observar os métodos antiquados de pedagogia (apesar da propaganda em
contrário), baseados na humilhação pública.

Ainda dentro do Realismo, há que se notar no romance sua vinculação ao Naturalismo (um subconjunto da literatura realista), principalmente na utilização de elementos que denotam um apego exagerado à sexualização. Destaca-se, numa visão que em muito lembra a teoria freudiana, o jogo entre implícito e explícito, declarado e escondido, desejado e reprimido, e principalmente entre masculino e feminino que muitas vezes resvala no homossexualismo.

Nos primeiros dias de aula Sérgio recebe de seu colega de sala, Rebelo, o conselho de que não deveria aceitar a proteção de ninguém. É que a escola estava dividida entre os meninos que protegiam, dotados, pois, de masculinidade, e os meninos protegidos, frágeis, passivos e, assim, dotados do que era entendido, no contexto do romance, como feminilidade.

Apesar de avisado, o protagonista não consegue manter por muito tempo a sua disposição por se impor no meio estudantil , buscando logo a cômoda proteção de alguém mais velho. Surge então Sanches. O problema é que esse rapaz, descrito como baboso e fedido, demonstra outras intenções. Se ajuda Sérgio na recuperação de seu desempenho escolar, esmerando-se em aulas
particulares, exagera nas demonstrações afetivas, chegando até a pedir que o
protagonista sentasse em seu joelho.

Não se deve deixar de notar aqui mais uma crítica à hipocrisia. Sancho era um vigilante, aluno
que tinha a função de zelar pelo comportamento dos outros. Além disso, era dos mais veementes defensores da “moral e dos bons costumes”. E justamente ele assediava Sérgio, com
intenções nada benéficas.

É mais um choque que servirá para o duro amadurecimento do protagonista – no sentido de
despir-se dos idealismos do primeiro capítulo e aceitar as decepções e desencantos como
naturais de nossa existência.

Ainda dentro do aspecto freudiano está o complexo de Édipo, apresentado numa forma mascarada. Tal se manifesta pela relação de antipatia que se estabelece entre os alunos do Ateneu e o diretor, que acaba se transformando na figura de um pai. Dessa forma, sua esposa, D. Ema, por ser carinhosa e muito protetora, acaba assumindo a função de mãe dos estudantes. Essa afetividade acaba até se manifestando em Sérgio, principalmente no final do romance, quando, doente,
é cuidado por ela.

Somando-se aos elementos realistas, naturalistas e impressionistas, chamam a atenção em
O Ateneu as recaídas que o autor tem no rebuscamento da linguagem, com subordinação
exagerada e inversões desnecessárias, o que lembra um pouco o Parnasianismo.
Note como tal se manifesta no texto abaixo, início do capítulo III:

Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudência, enquanto aplicavam-se os
outros à peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos
autobiográficos, para a oportuna confecção de mais uma infância célebre, certo não registraria,
entre os meus episódios de predestinado, o caso banal da natação, de conseqüências, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.

Ou então na famosa abertura do romance

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que
se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício
sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso.

Não há como não enxergar positivamente a elaboração muitas vezes poética da linguagem no romance, com um intenso emprego de metáforas e outras figuras de linguagem.
No entanto, o autor por vezes perde a mão, dificultando desnecessariamente a imediata compreensão do seu conteúdo.
Existe também em O Ateneu aspectos do Expressionismo, na medida em que seu traço, principalmente nas descrições, distorce a realidade por meio de caricaturas grotescas, que
resvalam pelo exagero. Note como isso se manifesta na descrição que Sérgio faz dos
seus colegas de sala.

”Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia.
O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio — palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo
geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, cenho
carregado, cabeleira espessa e intensa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente (...)”

Em suma, a riqueza do estilo de Raul Pompéia, apresentando elementos realistas, naturalistas, parnasianistas, impressionistas e expressionistas, permite com que sua obra O Ateneu fuja a
toda e qualquer padronização literária simplista. Torna-se, pois, um dos momentos mais brilhantes
da Literatura Brasileira no século XIX.

Personagens Principais

As grandes personagens de O Ateneu são basicamente três:

1) Sérgio: Segundo já ficou observado, Sérgio pode ser visto de dois ângulos: como protagonista,
é um adolescente inexperiente e tímido que é conduzido pelas mãos do pai para fazer a
sua iniciação na escola da vida.

À medida que vai “crescendo dentro do mundo sombrio do internato (e da vida), vai-se tornando amargo, céptico e sarcástico: agora é o adulto Raul Pompéia quem certamente fala pelo protagonista-narrador.
Sérgio é bem um símbolo do adolescente às voltas com o doloroso aprendizado da vida; é a
criança perdendo a sua pureza virginal, fazendo a sua iniciação no mundo podre e carcomido
de hipocrisia dos adultos.

2) Aristarco: Etimologicamente, o seu nome significa “governante de melhores”. Revela-se, ao
longo do livro, prepotente, autoritário, arrogante e vaidoso. Representa bem o educador
tradicional com seus métodos rígidos de disciplinas e com sua empáfia: “Acima de Aristarco,
Deus. Deus tão-somente; abaixo de Deus, Aristarco”.
Aristarco, sem dúvida, representa bem, com seu colégio, o mundo social com seus valores, bajulações, discriminações e convenções. Afinal, o internato era um espelho da sociedade.

3) Ema: Pode ser vista de dois ângulos: anagrama de mãe, na qual o protagonista projeta a
figura de sua genitora com o seu carinho, sua compreensão e a sua ternura; e mulher, evocada
pela protagonista de Madame Bovary, de Flaubert, cujo nome é também Ema.
Ao contrário da revelação marcada pelo ódio com Aristarco, “Sérgio e Ema constituem a
história de amor do romance”.
O relacionamento de Sérgio com ela é ambíguo, indo do maternal ao erótico, como declara:
“Não! Eu não amara nunca assim minha mãe”.
Representando bem a decadência moral que se quer mostrar, destacam-se Venâncio,
subserviente e bajulador de Aristarco;
Ângela, a canarina sensual, que costumava assistir ao banho dos rapazes; e os colegas de
Sérgio com os quais o protagonista mantém um relacionamento bastante estreito e íntimo:
Sanches, Bento Alves e Egbert e ainda Franco, mau aluno, perseguido, vítima de discriminações,
e América, o incendiário.

Estilo de Época


Em o Ateneu, podem-se detectar aspectos de vários estilos de época, desde o Naturalismo
até o Modernismo.

1) Para Mário de Andrade, “O Ateneu representa um dos aspectos mais altos do Naturalismo brasileiro”. Sem dúvida, o estilo naturalista se manifesta no livro através das descrições de
Ângela e na abordagem do homossexualismo que se pode entrever nas relações de Sérgio com Sanches, Bento Alves e Egbert. Muitas vezes, as personagens são descritas nos seus aspectos bestiais e animalescos, priorizando-se o seu lado instintivo, como é comum no Naturalismo.
Veja, por exemplo, a passagem abaixo, em que o narrador (Sérgio) declara:


“A amizade de Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me faz pensar que, mesmo sem o
caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque
me podia valer; porque me respeitava.” (Cap VI)


2) Além desses aspectos visivelmente naturalistas, sobressaem na obra outros que filiam ao
estilo realista. Como se pode perceber pela leitura de O Ateneu, Raul Pompéia tende para a
crítica ferina e caricatural de pessoas e instituições sociais; revela um pessimismo cético na visão
da sociedade; manifesta maior preocupação com a análise em detrimento do enredo, razão por que
a narrativa é arrastada, anda devagar; em suma, priorizando a análise dessecante e profunda, o autor revela forte carga psicológica na descrição das personagens.

Esses aspectos citados, como se sabe, configuram o Realismo e estão bem presentes em O Ateneu. Como exemplo, veja-se a visão de escola que o autor apresenta, com base no Ateneu, onde tudo
é visto negativamente. A escola apresenta por Pompéia é um verdadeiro antro de perdição, onde campeia a bajulação, a vaidade, a discriminação, as injustiças, a corrupção, as amizades perigosas...
Como diz o autor, “não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”. Quem chegou a
ver os filmes “Perfume de Mulher” e “Sociedade dos Poetas Mortos” certamente dará
razão ao romancista.

3) Para Afrânio Coutinho, Raul Pompéia, após ter passado pelo Realismo-Naturalismo, “só encontrou plena e satisfatória expressão dentro dos cânones do Impressionismo”, tendo tido a
nossa “primeira grande repercussão” nesse estilo de época, que se destaca mais na pintura.
Segundo o mesmo Afrânio Coutinho, “o mais importante no Impressionismo é o instantâneo e
único, tal como aparece ao olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que
ele desperta, num dado instante,, no espírito do observador, que é por ele reproduzido caprichosa
e vagamente”. No Impressionismo, pois, o que importa são as impressões, as sensações que
ficam, não os fatos acontecidos: “no las cosas, sino la sensación de las cosas”.

Em O Ateneu, é aspecto preponderante a sensação visual, olfativa e auditiva, Como observa o conhecido Prof. Luís Carlos Maciel “em vez da relação causal exterior entre indivíduos e acontecimentos, o que importa é a relação interna evocada na mente do artista (...) É a vida
interior em todos os seus mais requintados matizes que lhe interessa retratar através de uma linguagem expressiva, colorida, sonora, rica de imagens, onde sentimentos e sensações
suplantam os aspectos intelectuais”.
Como se vê, o Impressionismo aproxima-se do Simbolismo e pode bem ser entendido como uma versão em prosa da estética simbolista.

4) Outra tendência estilística que pode ser detectada em O Ateneu é a modernista que se
manifesta através da postura crítica assumida pelo autor, ao longo da obra. Com efeito, embora
o seu estilo seja de feição acadêmica, o autor critica e satiriza, como é comum no Modernismo,
o tom retórico e verbalista da poesia parnasiana. Veja, por exemplo, a passagem abaixo em que
o autor apresenta de forma caricatural o Dr. Ícaro do Nascimento:

“Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saía um belo nariz alexandrino de dois
hemistíquios, artisticamente longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da última moda
do Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como
os de Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se percebia ali como deve brilhar
o fundo na fisionomia da estrofe”.
Dessa forma, com sua genialidade, Raul Pompéia antecipa o Modernismo, podendo ser
visto como um dos precursores do movimento que eclodiu em 1922, com a famosa
Semana da Arte Moderna.

Linguagem


1) Como é próprio da época em que se enquadra Raul Pompéia a linguagem se revela acadêmica, marcada pela correção e obediência aos padrões gramaticais. É uma língua distante do leitor moderno, mais afeito aos coloquialismos e à linguagem informal do estilo modernista. Além de outras, o autor usa, com freqüência, construções clássicas, hoje pouco comuns, como a colocação apossinclítica do pronome (uso do pronome átono antes de palavra tida como atrativa): “disse
que me não interessavam as intrigas”.

2) Mais ou menos nessa linha, destaca-se a erudição do autor revelada através de citações e referências clássicas, a que o leitor de hoje está pouco acostumado. Veja, por exemplo, a
passagem abaixo, em que o autor perpassa o exceto de figuras mitológicas: “Era mais que uma revelação temerosa do Olimpo; era como se Júpiter mandasse Mercúrio catar à terra os raios já disparados e os unisse ao estoque inavaliável dos arsenais do Etna...”

3) Outro aspecto notório do estilo de Raul Pompéia é a tendência para a adjetivação excessiva,
que se casa bem com a atmosfera pictórica de feição impressionista que perpassa o livro.
Quase sempre o substantivo vem acompanhado de adjetivo, como revelam os excertos seguintes: “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra”. “Erigia-se na
escuridão da noite como imensa muralha de coral flamante, como um cenário animado de safira
com horripilações errantes, de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde
emprestado à selva imensa dos romances cavalheirescos”.

4) Como já se entreviu pelas passagens transcritas, outra tendência estilística do autor é para o símile (= comparação), explicitada pela conjunção “como”, que Mario de Andrade classificou de “mero cacoete retórico”: “No pátio o silêncio dormia ao sol como um lagarto”: “As condecorações gritavam-lhe no peito como uma couraça de gritos”: “As mangueiras, como intermináveis
serpentes, insinuavam-se pelo chão”.

5) Além do símile, o autor faz uso também, com muita freqüência, de outras figuras de estilo,
como a hipérbole e a metáfora: “Aristarco arrebentava de júbilo!” (hipérbole); “O Ateneu é uma sementeira uma horta” (metáfora); “Um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico” (hipérbole e símile).
6) Conforme já observamos outro aspecto que se destaca no estilo de Pompéia e combina a atmosfera impressionista é o cromatismo (obsessão pela cor), ora tendendo para o vermelho
(“há sons brilhantes como a luz vermelha”, “trazia um ferro na mão gotejando vermelho”);
ora para o branco (“ao fundo daquelas altíssimas paredes do Ateneu, claras da caiação, do
tédio, claras, cada vez mais claras”).
Como observa o Prof. Luiz Carlos Maciel, “enquanto Machado de Assis ou Euclides da Cunha
são prosadores em preto-e-branco, ou em cores frias, Raul Pompéia revela, de certo como
ninguém, em nossas letras, o sentimento da cor luminosa e viva e a adesão à claridade”


Aspectos Temáticos Marcantes



1) A narrativa de O Ateneu é dominada por traços satíricos e caricaturescos. É com essa visão amarga e caricatural que o narrador vê o mundo retratado: a escola, os colegas, os professores,
as instituições sociais. O retrato maior, entretanto, é o de Aristarco, o diretor, fulminado, no final
do livro, pelo incêndio devorador, que destrói a sua arrogância, a sua vaidade e a sua empáfia.
A análise empreendida pelo autor é profunda e dissecante – vem de dentro, das entranhas.
O Ateneu, o microcosmo apresentado, é bem um retrato da sociedade. Como se viu, é um mundo
que se revela podre por dentro, carcomido nas suas entranhas pelo cancro da hipocrisia e do
apego às aparências. O livro de Raul Pompéia é uma crítica às instituições humanas, destruídas
de valor e mascaradas por superficialidades.


2) A escola, em O Ateneu, é vista como um reflexo da sociedade, conforme já ficou observado
neste trabalho (“Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”). Nela sobressaem
os casos de corrupção, deslealdade, amizades perigosas, homossexualismo e outras degenerescências sociais.
Esse antro de perdição, contudo, vem mascarado por aparências e exterioridades que camuflam
a verdade. Desviada da sua verdadeira função – formar e instruir – a escola acaba-se tornando
um meio de se exteriorizar a vaidade e a empáfia daqueles que detêm o poder, como nos filmes criados neste estudo – “Sociedade dos Poetas Mortos” e “Perfume de Mulher”.

3) Por outro lado, O Ateneu mostra o doloroso e pungente aprendizado da vida pela criança.
A cena inicial, em que o pai deixa o filho à porta do Ateneu, é bm um símbolo do ingresso da
criança no mundo adulto: “Vais encontrar, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.
Coragem para a luta”.
Assim, arrebatada da “estufa de carinho que é o regime do amor doméstico”, a criança se vê
frágil e indefesa diante das hostilidades do mundo, à merece de “educadores” que lhe impõem a camisa-de-força das convenções sócias, marcadas pela mentira e superficialidade. Violentada, desses embates quase sempre restam lágrimas, dor e sofrimento.

4) Dessa forma, o sentimento de vingança acaba-se instalando, sub-repticiamente, nas cabeças
em formação. A necessidade de libertação desse mundo de opressão, que rouba a liberdade de
ação e a espontaneidade dos gestos, é uma conseqüência natural e lógica: a catarse é uma
válvula que descomprime, liberta e alivia.
E é assim que termina O Ateneu – com vingança do ser violentado contra o mundo que o oprime:
o incêndio, ao final, é bem um protesto contra a violência a hipocrisia e esse mundo de aparências construído pelos homens da Terra.


FONTES

http://www.culturatura.com.br

http://www.portrasdasletras.com.br

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Eustáquio Lagoeiro Castelo Branco
Webmaster, Webwriter, professor graduado em história e sociologia,
pós-graduado com especialização em informática educacional
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