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Como a Alfabetização Carencial
Afeta a Leitura

Prof. Vicente Martins
vicente.martins@uol.com.br
 
“A consciência fonológica deve ser trabalhada na fase de educação leitora, em que a criança aprende a ler com o objetivo de ler para aprender. Se a alfabetização é carencial, deficiente, a criança terá dificuldade em seu processo de aprendizagem. ”.


Comentarei um caso de dislexia, em sala de aula, relatado por uma mãe de uma criança de 9 anos. O objetivo deste artigo é apontar a alfabetização carencial como uma das causas mais comuns de dificuldade específica em
leitura e que exige da escola e dos próprios pais uma

 intervenção eficiente na idade ideal de aquisição leitora por parte dos educandos.

A mãe me relata o seguinte: “Tenho notado que meu filho de 9 anos, atualmente, cursando
a 3ª série, apresenta dificuldade de leitura e tende a trocar letras
como "b e d" e se confunde com o som de sílabas como "se e es", o que, segundo seu artigo, enquadra-se em um caso de dislexia pedagógica”.

O primeiro ponto a considerar é a idade-série da criança e, para tanto, tomarei como escala de referência o atual continuum da faixa etária ideal do ensino fundamental, previsto na Lei de Diretrizes Nacionais da Educação Nacional(LDB) e legislação educacional correlata.

Aos 6 anos, a Lei diz que o aluno deve ingressar no ano inicial do ensino fundamental e,
aos 14 anos de idade, concluir esta etapa da educação básica.
Aos 9 anos de idade, portanto, o aluno deve estar na terceira série ou no quarto ano do ensino fundamental.
Levando-se em conta este parâmetro nacional, observamos que a criança acima referida
está na faixa etária ideal, o que já descarta o atraso escolar.

Mesmo sem o atraso escolar ou distorção idade-série é importante considerar um segundo
ponto na análise do caso.
Refiro-me à aquisição e ao desenvolvimento da habilidades lingüísticas básicas e instrumentais
do ensino como leitura, escrita, fala e ortografia, necessárias para o desenvolvimento da
capacidade de aprender e de aprendizagem, fins últimos do ensino fundamental.

A mãe afirma que a criança apresenta dificuldade em leitura, o que nos leva a supor dificuldade
no reconhecimento das palavras. Em geral, o não reconhecimento da palavra, sobretudo na
leitura em voz alta, decorre da falta de consciência fonológica, o que pode ser comprovado
quando a mãe afirma haver, no déficit de leitura da criança, a troca ou permuta de
fonemas /b/ e /d/, ambos oclusivos, e confusão na pronunciação de sílaba.

A troca de fonemas, no decorrer de leitura, decorre da falta de consciência fonológica.
O déficit de consciência dos sons da fala afeta a leitura mas não necessariamente a fala, ou
seja, uma criança pode não saber soletrar, decodificar, transformar letras em sons da fala,
nomear as letras, separar ou apagar fonemas em uma palavra, déficits que tem implicações significativas na fluência leitora, mas nenhuma dessas deficiência poderá afetar
a habilidade da fala.
A consciência fonológica deve ser trabalhada na fase de educação leitora, em que a criança
aprende a ler com o objetivo de ler para aprender. Se a alfabetização é carencial, deficiente, a criança terá dificuldade de fazer o reconhecimento adequado das letras do alfabeto e das
notações léxicas (til, cedilha, acentos agudo, grave etc.) como representantes, no campo
da escrita, dos sons da fala.

Sem o entendimento de que as letras representam os fonemas da língua materna (vogais,
semivogais e consoantes) não há consciência fonológica, habilidade imprescindível à leitura
acurada, uma consciência que, se apreendida, evitaria a leitura com hesitações na soletração
ou dificuldade na transformação das palavras escrita em sons da fala.

A intuição da mãe de que a deficiência leitora da criança tem suas raízes na alfabetização
deficitária pode ser observada quando diz que “ o processo de alfabetização do meu filho foi deficiente, pois ele não chegou a cursar o pré-primário, passou do 2º período pré-escolar
diretamente para a 1ª série do ensino fundamental.
Embora ele não tenha dificuldade de compreensão e entendimento, apresenta uma leitura
difícil e lenta, muitas vezes se perde durante a leitura de uma frase, como se apresentasse uma distração na hora de ler”.

Quanto a essa observação da mãe, importante é assinalar que a alfabetização em leitura não
pode ser vista pela escola ou pelos pais apenas como um momento dentro da educação infantil, especialmente a pré-escola, que vai dos quatro aos cinco anos de idade.
Também não menos importante afirmar que a educação infantil não é pré-requisito para o
ingresso no ensino fundamental.
A alfabetização em leitura pode começar na pré-escolar, mas seu lugar, enquanto ensino
sistemático, deve ser o primeiro ciclo do ensino fundamental, isto é, do 1º ao 5º ano, ou, como
se classificava anteriormente, da 1ª série à 4ª série do ensino fundamental.

Aos 9 anos, se a criança comete erros fonológicos, como a troca de fonemas na leitura ou a
troca de letras na escrita ortográfica, é um forte indício que a consciência fonológica não está sistematicamente trabalha, o que poderá acarretar, no segundo ciclo do ensino fundamental, dificuldades progressivas na aprendizagem das práticas de leitura de textos e das práticas de produção de textos bem como das demais disciplinas do currículo escolar.


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Vicente Martins, palestrante, é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral,
Estado do Ceará, dedica-se entusiasticamente às dificuldades de aprendizagem relacionadas com
a leitura(dislexia), escrita(disgrafia) e ortografia(disortografia). E-mail: vicente.martins@uol.com.br.
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