Clara dos
Anjos
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Clara dos Anjos
de Lima Barreto

Frederico Barbosa e Sylmara Beletti
in:  http://fredb.sites.uol.com.br/clara.html
É muito difícil escrever sobre os livros de Lima Barreto sem incorrer um pouco no pecado do biografismo. Poucos escritores brasileiros foram tão obsessivos na investigação da temática do preconceito quanto Lima Barreto.

INTRODUÇÃO

Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do preconceito racial e social, vivenciado
por uma jovem mulher do subúrbio carioca.
O grande historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Holanda, já apontava, escrevendo sobre Clara dos Anjos, que é muito difícil “escrever sobre os livros de Lima Barreto sem incorrer um pouco no pecado do
biografismo”.
Poucos escritores brasileiros foram tão obsessivos na investigação da temática do preconceito quanto Lima Barreto. Mulato, nasceu em 1881, mesmo ano em que o também mulato Machado
de Assis introduzia o Realismo na literatura nacional com a publicação de Memórias Póstumas
de Brás Cubas e Aluísio Azevedo inaugurava a Naturalismo no Brasil com o romance
O Mulato. Não são apenas coincidências. A questão do preconceito contra a mestiçagem, já denunciada no obra de Aluísio Azevedo, será fundamental no pensamento nacional entre a implantação do Naturalismo e a do Modernismo,
em 1922, ano da morte de Lima Barreto. Até por razões pessoais, e por viver exatamente nesse período, sempre retratando-o de forma crítica e até ressentida, o autor de Clara dos Anjos seria o escritor que mais sentiria (na pele) o preconceito e o retrataria
com tintas mais ácidas na nossa literatura. É ainda Sérgio Buarque de Holanda que melhor
resume como essa temática se apresenta em Clara dos Anjos:
"Em Clara dos Anjos relata-se a estória de uma pobre mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapaz de condição social menos humilde do que a sua. É uma estória onde se tenta pintar em cores ásperas o drama de tantas outras raparigas da mesma cor e do mesmo ambiente. O romancista procurou fazer de sua personagem uma figura apagada, de natureza "amorfa e pastosa", como se nela quisesse resumir a fatalidade que persegue tantas criaturas de sua casta: "A priori", diz, "estão condenadas, e tudo e todos parecem condenar os seus esforços e os dos seus para elevar a sua condição moral e social." É claro que os traços singulares, capazes de formar um verdadeiro "caráter" romanesco, dando-lhe relevo próprio e nitidez hão de esbater-se aqui para melhor se ajustarem à regra genérica. E Clara dos Anjos torna-se, assim, menos uma personagem do que um argumento vivo e um elemento para a denúncia."

O ENREDO

Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “sedentária e caseira.” Joaquim era carteiro, “gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora”. Também “compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.” Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marrameque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas.

Marrameque e as rodas literárias

Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque freqüentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.
A descrição dessa figura revela a crítica de Lima Barreto a vários aspectos da vida literária brasileira:

"Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério, em que não fazia o serviço respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparalítico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de boêmios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita política, hábito que lhe ficou. (…)
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram estimáveis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís Murat. Não mentia, enquanto não confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam, daquela época, não ocultavam o título com que partilhava a honra de ser membro de um cenáculo poético. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter fizeram-lhe ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de boêmia literária, poetas e literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos e saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. (…)
Tendo vivido em rodas de gente fina — como já vimos — -, e não pela fortuna, mas pela educação e instrução; tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento — Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista."

Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo um cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”.

Clara: a “natureza elementar”


Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente…os demais…haviam morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.”
O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça – sua “alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor” – como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas modinhas:

“Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”

Essa “natureza elementar” de Clara se traduzia na ausência de ambição em melhorar seu modo de vida ou condição social por meio do trabalho ou do estudo:

“Nem a relativa independência que o ensino da música e piano lhe poderia fornecer, animava-a a aperfeiçoar os seus estudos. O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. (…) Não que ela fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher.”


A descrição de Clara reforça os malefícios da formação machista, superprotetora, repressiva e limitadora reservada às mulheres na nossa sociedade. Ecoa, portanto, a descrição de Luísa, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou a Ana Rosa de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Todas são, na verdade, herdeiras diretas da figura de formação débil, educada nas leituras dos romances românticos, que é Emma Bovary, criada por Gustave Flaubert no romance inaugural do Realismo, Madame Bovary (1857).

Cassi: o corruptor


Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara,
Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor.
Assim o descreve Lima Barreto:

“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e
de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado "modinhoso", além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que
teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo "Brandão", das margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente ao meio — a famosa "pastinha". Não usava topete, nem bigode. O calçado era conforme a moda, mas
com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas
com o seu irresistível violão.”

O padrinho Marramaque, que já lhe conhecia a fama, tenta afastá-lo de Clara quando percebe
seu interesse. Na festa de aniversário da afilhada, provoca Cassi e deixa claro que ele não é
bem-vindo ali e que seria melhor que se retirasse. Cassi vinga-se de modo violento: junta-se a
um capanga e ambos assassinam Marramaque. Clara, que já suspeitava das ameaças do rapaz
ao padrinho, passa a temê-lo, mas ele consegue seduzi-la, principalmente ao confessar seu crime, dizendo que matou por amor a ela.
Malandro e perigoso, Cassi já havia se envolvido em problemas com a justiça antes, mas sempre fora acobertado pela sua família, especialmente sua mãe, que não queria que fosse preso. Assim, conseguia subornar a polícia e continuar impune, mesmo depois de ter levado a mãe de uma de
suas vítimas ao suicídio e da perseguição da imprensa.
O exagero narrativo de Lima Barreto torna-se patente ao descrever a figura do sedutor. Branco, sardento e de cabelos claros, é a antítese de Clara. Como o apontou Lúcia Miguel Pereira:
“Até os animais da predileção de Cassi, os galos de briga, são apresentados com visível má
vontade: ‘horripilantes galináceos’ de ‘ferocidade repugnante’.”

O desfecho


Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Convencida pela vizinha, dona Margarida, que
procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir “reparação do dano”.
A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe
do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos
 no conceito de todos.”
O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre
e negra, geração após geração.
No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação:

“O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam...”

E, na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta vida.”
 

O UNIVERSO SUBURBANO


O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das pessoas que ali vivem.
Nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda:

"Ao oposto de Machado de Assis, que saído do Morro do Livramento procuraria os bairros da classe média e abastada, este homem, nascido nas Laranjeiras, que se distinguiu nos estudos de Humanidades e nos concursos, que um dia sonhou tornar-se engenheiro, que no fim da vida ainda se gabava de saber geometria contra os que o acusavam de não saber escrever bem, procurou deliberadamente a feiúra e a tristeza dos bairros pobres, o avesso das aparências brancas e burguesas, o avesso de Botafogo e de Petrópolis."

Os “bíblias”

Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que
alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:

“Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos "bíblias"… O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos,
já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por
procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.”


E reflete sobre a nova seita:

“Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia,
funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há
entre esta e a de que vieram.”


A crítica às “novas seitas cristãs” revela também a ojeriza de Lima Barreto à influência
americana no Brasil. Como o colocou Antônio Arnoni Prado, o autor de Clara dos Anjos
“interessou-se pelos Estados Unidos, em virtude do tratamento desumano que este país
dispensava aos seus cidadãos de cor. (…) Censurou duramente a discriminação racial americana, assim como o expansionismo imperialista dos ‘yankees’, que, através da diplomacia do dólar,
ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autêntico protetorado.” Nada mais profético.

O PRÉ-MODERNISMO BRASILEIRO


Durante as primeiras duas décadas do século XX, enquanto a Europa se via invadida pelos movimentos da vanguarda modernista, a literatura brasileira ainda se encontrava dominada pelos estilos surgidos no século anterior. Parnasianismo e simbolismo predominavam na poesia,
realismo e naturalismo na prosa.
Alguns escritores, no entanto, rompiam com estas quatro tendências, e, ainda que muito diferentes, não comungando de um estilo comum, antecipavam, cada um a seu modo, as inovações que
seriam propagadas pelos modernistas de 1922, problematizando a realidade social e cultural brasileira. Entre estes escritores, destacam-se Graça Aranha (1868-1931), Simões Lopes Neto (1865-1916), e, principalmente, Euclides da Cunha (1866 - 1909), Augusto dos Anjos (1884 - 1914), Lima Barreto (1881 - 1922) e Monteiro Lobato (1882 - 1948).

A herança naturalista

O Realismo-naturalismo aparece por volta de 1870 como uma derivação do realismo. Recebeu profunda influência de algumas das teorias e doutrinas que estavam no auge naquele momento, sobretudo do materialismo e do determinismo. O Naturalismo considerava a vida do homem resultado de fatores externos (raça, ambiente familiar, classe social, etc.). Influenciado pelas ciências experimentais, o escritor naturalista tentava demonstrar, com rigor científico, que o comportamento humano está sujeito a leis semelhantes às que regem os fenômenos físicos. Se o realismo pretendia ser objetivo e imitar a realidade, o Naturalismo desejava fazer uma análise histórica, social e psicológica da realidade, um estudo profundo a partir de uma ampla
documentação prévia.
O Realismo-naturalismo, que tanto influenciou Lima Barreto na composição de Clara dos Anjos,
é cientificista e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais:
do meio, das características hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances
naturalistas procuravam, através da representação literária, demonstrar teses extraídas de
teorias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus aspectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses os aspectos que mais chamam à atenção na narrativa exagerada de Clara dos Anjos.

VIDA E OBRA Na trincheira contra o preconceito


Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881 - ano da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis e de O Mulato, de
Aluísio Azevedo. Mulato, pobre, socialista convicto, atormentado pela loucura do pai, não pôde completar um curso universitário.
O pai de Lima Barreto, João Henrique, era tipógrafo. Sua mãe, Amália Augusta, professora,
dirigia em sua casa um pequeno colégio para meninas, o Santa Rosa, que foi fechado na época
do nascimento do escritor, devido à situação econômica da família e do estado de saúde de sua
mãe, que contraíra tuberculose. Em 1887, Amália morreu, deixando cinco filhos.
 
Estudante brilhante, Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica, em 1897. Teria sido um excelente aluno, não fosse o preconceito racial que sofria dentro da escola, que fez com que se isolasse dos colegas e sofresse a perseguição explícita do professor Licínio Cardoso. Sofria constantes reprovações injustas e, para agravar ainda mais a sua situação, seu pai enlouqueceu. Para cuidar do pai e sustentar os irmãos, ele abandonou o curso antes da formatura e foi trabalhar
 no funcionalismo público, em 1903. Sentindo-se frustrado profissionalmente, começa a beber e a freqüentar cafés, livrarias e redações de jornais do Rio de Janeiro. Ingressa no jornalismo profissional em 1905, com uma série de reportagens no Correio da Manhã. Na mesma época
inicia sua militância política, participando no comitê do Partido Operário Independente, de
Pausílipo da Fonseca.
Em 1909, publica o seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, elogiado no
ano seguinte por José Veríssimo. Animado com o sucesso, Lima Barreto passa a trabalhar intensamente. Esta fase, porém, também é marcada por muita pobreza e desgostos familiares,
que o levam à primeira internação no hospício, em agosto de 1914. Quando sai, está
completamente dominado pelo álcool.
Revoltado contra as injustiças e os preconceitos de que também era vítima, dedica sua obra
a desmascarar a falsidade dos poderosos: políticos, intelectuais, burocratas, jornalistas,
militares, etc.
Em 1917, foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a saudar a Revolução Russa, e passou
a defender o comunismo com ardor. Rejeitado pela Academia Brasileira de Letras, foi acusado
de ser um escritor semi-analfabeto, por insistir em utilizar uma linguagem coloquial, distante
da norma culta parnasiana. Alcoólatra, depressivo, viveu, por vezes literalmente, na sarjeta e
foi internado duas vezes no Hospício Nacional. A boêmia e o alcoolismo parecem não ter
prejudicado seu trabalho intelectual, mas o levaram à morte prematura. Em 1o de novembro
de 1922, morreu, aos 41 anos, de colapso cardíaco, em completa miséria.
Dois dias depois seu pai, João Henrique, também faleceu. Por ironia do destino, Lima Barreto morreu exatamente no ano da explosão do modernismo no Brasil, de que foi o maior precursor
e que viria a provar o seu valor.
O abandono do modo artificial e erudito de escrever, dominante em seu tempo, foi a principal contribuição de Lima Barreto para a literatura contemporânea. Adotou em seus romances a informalidade estilística própria do jornalismo e da fala cotidiana, colaborando para a soltura e descontração da frase, o que agradou parte dos escritores modernistas da Semana de Arte
Moderna, de 1922. Registrou com riqueza de detalhes muitos aspectos da vida social e política
do Rio de Janeiro no tempo da Primeira República, compondo, em suas obras, um interessante painel das pessoas remediadas do Rio de Janeiro.
A obra de Lima Barreto revela forte influência do naturalismo de Aluísio Azevedo, assim como
de Machado de Assis, a quem dizia não admirar, Dostoievski e dos positivistas franceses, como Taine e Brunetière. Apesar dessas influências, é um dos autores mais independentes de nossa ficção. Partilhava da idéia de que a literatura devia expressar diretamente os sentimentos e as
idéias pessoais do escritor. Por isso, quase todos os seus romances possuem lances
autobiográficos. Julgava, ainda, que a função primordial da literatura é unir os homens e desmascarar os falsos valores e as instituições que exploram a inconsciência popular.

Cores Autobiográficas

Lima Barreto produziu romances, contos, crônicas, sátiras políticas, críticas literárias e um livro
de memórias. Entre suas obras, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915); Numa e Ninfa (1915); Vida e Morte de M.J. Gonzaga
de Sá (1919); Histórias e Sonhos (contos, 1920); Os Bruzundangas (sátira política, 1923);
O Cemitério dos Vivos (romance autobiográfico sobre sua experiência no hospício, 1953).
 
Nem tudo o que Lima Barreto escreveu foi publicado em vida. Boa parte dos escritos que
formam os 17 volumes de sua obra completa teve de ser coligida dos jornais e das revistas em
que colaborou. O romance Clara dos Anjos, por exemplo, embora tenha sido concluído em 1922,
só foi publicado em volume em 1948. Na sua obra, sempre explora temas ligados à sua própria
vida, como o preconceito da sociedade para com os mestiços e pobres.

Seus romances apresentam a indignação contra a insensibilidade dos ricos, a superficialidade
dos burocratas, a corrupção dos políticos, a esterilidade dos falsos artistas.
Esse caráter autobiográfico dos seus textos foi assim demonstrado pelo crítico literário Sérgio Buarque de Holanda, tomando como exemplo o romance Clara dos Anjos:

"As confissões a que alude surgem abertamente, "com um mínimo de disfarce, às vezes disfarce algum", pois não são contidas por nenhum sentimento de frustração. E é indiferente que se exprimam ora diretamente pela boca do autor, ora pela palavra e até pela figura dos personagens. Quem, entre os que se recordam de Lima Barreto, não reconhecerá imediatamente muitos dos
seus traços no retrato do poeta Leonardo Flores, personagem de Clara dos Anjos? E mesmo no empolado das frases em que o poeta repele indignado a encomenda de uns versos, que lhe é feita
por intermédio do amigo Meneses, entraria realmente alguma intenção irônica?
"Nasci pobre, nasci mulato...", diz Leonardo. E, num longo desabafo, onde se fala na fidelidade
à própria vocação, no sacrifício às coisas proveitosas, como o dinheiro, as posições, a respeitabilidade, nas humilhações padecidas e enfim no sofrimento resignado, exclama:
"Pairei sempre no ideal; e se este me rebaixou aos olhos dos homens, por não compreenderem certos atos desarticulados da minha existência, entretanto elevou-me aos meus próprios, perante
a minha consciência, porque cumpri o meu dever, executei a minha missão, fui poeta!
Para isso fiz todo o sacrifício. A Arte só ama a quem a ama inteiramente, só e unicamente; e
eu precisava amá-la, porque ela representava não só a minha redenção, mas toda a dos meus
irmãos, na mesma dor."

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