Textos, Artigos e Analises
Escola Puxada!
Gabriel Perissé
A Arte de Ensinar

- Nossa escola é puxada, viu?! - afirmou com orgulho a diretora aos pais que vieram matricular a menina.

- Puxa! Escola puxada é tudo o que desejamos para a nossa filha!

A menina olhou para a diretora, que lhe sorria com todos os dentes do fundo, olhou para os pais, e sentiu um aperto no coração. Escola puxada? Mas o que é que vão puxar aqui? Puxar as minhas orelhas, talvez?

À noite, a menina puxou o lençol até os olhos. No dia seguinte, seria puxada por professores, sabe Deus para onde. Sonhou que estava amarrada por mil cordas e um gigante a puxava para cima e para baixo, como iôiô. E como sonho puxa sonho, outras cenas terríveis povoaram sua última noite antes de estrear na nova escola, uma escola puxada, e não mais aquela escolinha frouxa em que estivera antes de chegar aos 5 anos.

De manhã, quase que puxada pelo pai, foi deixada na escola. E ao longo de um ano, ao contrário de suas previsões, ninguém lhe puxou nada. Vez ou outra a diretora puxava o hino nacional, mas quem tinha que cantar mesmo eram os alunos. Ela só murmurava, com rosto de devoção à pátria.

A biblioteca estava fechada. Vazamento.

Nas aulas de balé, música da Xuxa.

Aulas insossas. No livro didático, meio ultrapassado, havia a imagem do antigo telefone de disco.

Certo dia, certa empresa visitou a escola trazendo um iogurte novo para as crianças degustarem. Um pequeno teste: "você gostou?". "Deveria ser mais doce?".

Não houve, ao longo do ano, nenhuma reunião com os pais. A escola enviava bilhetes dentro da agenda da menina, avisando de um passeio à fascinante e "engordadora" fábrica de refrigerantes ou da necessidade de enviar dinheiro para alguma atividade inesperada que projeto pedagógico algum tinha previsto.

No final do ano, a menina pediu para sair da escola. Cansara-se de ouvir os gritos da professora que seria sua no ano seguinte.

- Gritos? Nossas professoras jamais gritam!

A menina olhou apreensiva para os pais. Mas eles responderam à diretora:

- Se nossa filha disse que há gritos, é porque é verdade. Acreditamos em você, filha. Vamos procurar outra escola. E se alguém nos disser que a escola é puxada, vamos ver
quem está puxando a carroça!
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Gabriel Perissé
é coordenador pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa) e autor do livro
recém-lançado A arte de ensinar, pela Editora Montiei.

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