Textos, Artigos e Analises
Guerra Civil Espanhola:
um "entre guerras"?
 
J. C. Sebe Bom Meihy

Em julho de 1986, para marcar a passagem dos 50 anos do início da Guerra Civil Espanhola, uma onda de artigos foi publicada em diferentes jornais do mundo. Essa retomada do assunto prova a persistência do tema que, curiosamente, assinala seu impacto e presença não apenas nos debates das chamadas ciências sociais mas também nas artes, no jornalismo, enfim, na opinião pública em geral. Agora, ao se retomar o tema, na abertura do ano de 1996, quando são assinalados os 60 anos do início daquele conflito, novamente se avolumam questões pertinentes ao significado do drama dos espanhóis.

Há cerca de dez anos, alguns aspectos comuns marcaram esta rememoração. No Brasil, entre
outros, vale recortar um trecho da matéria do jornal Folha de São Paulo, de 17 de junho de 1986,
que salientava:

A Guerra Civil Espanhola costuma ser descrita, em termos militares como um "ensaio" da
Segunda Guerra Mundial. Alemães e italianos lutaram contra russos, o que viriam a fazer
novamente alguns anos depois.

Tal postura jornalística repete o que tem sido também consagrado na historiografia que, além de tudo, tem evidenciado outros ângulos do conflito: a Guerra Civil Espanhola é explicada como conseqüência da Primeira Guerra Mundial e como fato político que apontava para o agravamento
dos problemas não resolvidos anteriormente; ela teria sido uma "guerra de intelectuais", de pensadores de diversos campos do conhecimento e de procedências variadas que assumiram o
dever de propor um direcionamento do saber vocacionado ao compromisso social.

Como um momento que secundou os dramas da Primeira Guerra, a Guerra Civil Espanhola seria 
um capítulo da determinação histórica que pontificava a inevitabilidade de 
conflitos mundiais no século XX. 
Dado o crescimento de dois sistemas opostos e que 
se confrontavam em nível público e em escala quase universal — a esquerda representada pelos diversos socialismos e a direita pelo nazi-fascismo —, 
a construção de uma expectativa bélica teria provocado uma reflexão generalizada sobre a qual os pensadores deveriam se pronunciar. 
Estes encaminhamentos facilitaram a leitura "mundializada" da Guerra Civil Espanhola. 
É assim que a participação estrangeira naquele conflito facilita a percepção desse embate como
uma espécie de "véspera da Segunda Guerra Mundial". 
Isto não seria simplista, ou mecanicista demais?

Outra face da mesma moeda revela que o pressuposto da instalação de guerras seguidas no século XX revelaria desdobramentos com implicações internacionais. A existência de uma numeração de guerras (Primeira e Segunda e até a expectativa de uma Terceira) confirmam o caráter desdobrado desses eventos. Sugerem também nexos progressivos. Dois pontos mostram-se importantes para a reflexão: 1) Qual a validade do apriorismo na História?; 2) Qual o significado do esvaziamento particular dos conflitos e a perda das especificidades de cada caso?

O apriorismo é, sem dúvida, um dos pontos mais dilemáticos da reflexão histórica. Partir da hipótese do encadeamento de guerras, por exemplo, implica uma leitura da História na qual os elementos estão definidos antes de seus acontecimentos posteriores. A contrapartida do apriorismo é o esvaziamento dos conteúdos específicos da cada evento. Mais do que identificar a presença de "leis históricas infalíveis", a percepção dos apriorismos tem promovido a generalização das razões circunstanciais de cada situação. Este universalismo combina a globalização da história com a perda do teor local.

A história da Guerra Civil Espanhola talvez seja um dos mais eloqüentes exemplos da seqüencialização apriorística da história. Característica evidente disto é a sua localização temporal como um acontecimento entreguerras. A pergunta que se faz introdutoriamente é a seguinte: o que se perde supondo a Guerra Civil Espanhola como um conflito concatenado aos processos bélicos do século? Mais eloqüente do que esta questão é, sem dúvida, a análise das sutilezas argumentativas em favor da precoce internacionalização da Guerra Civil Espanhola.

No cerne da discussão sobre os vínculos causais entre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, reside, entre outros, um problema historiográfico importante. Em que medida, pergunta-se, é válido supor que a Guerra Civil Espanhola antecedeu, com nexo causal, aquele que foi o mais envolvente conflito bélico do mundo moderno? De certa forma, os três aspectos (a polarização política mundial desde o fim da Primeira Guerra, a participação de expressivos intelectuais envolvidos no esforço de reflexão pública sobre o papel do conhecimento na construção de um novo ideário social e o miliciamento de estrangeiros que emblemou essas tensões no momento da Guerra Civil) completam uma face da explicação sobre um mito que "desespanholiza" aquela Guerra. A hegemonia do aspecto internacional sobre os dilemas genuinamente espanhóis é a primeira preocupação a destacar. A segunda compõe a organização historiográfica que abriga e contextualiza tal processo.

Uma análise mais contundente pode jogar luzes capazes de iluminar a questão da "espanholidade" da Guerra Civil Espanhola e responder de forma eficiente o significado do problema da internacionalização do conflito que, antes de envolver outros países, causas e argumentos, foi uma questão interna da Espanha. Cabe lembrar ademais que a Guerra Civil, apesar de ter-se iniciado no Norte da África, ocorreu especificamente em território peninsular.

Em regra, os argumentos centrais deste debate consubstanciam-se em três posturas básicas: 1) que a Guerra Civil Espanhola foi um episódio genuinamente espanhol em que o elemento estrangeiro entrou com um universo de problemas próprios e alheios à especificidade da Espanha; 2) que a Guerra Civil Espanhola aconteceu dependentemente de um processo internacional e que as causas lançadas no seu processo foram contextuais, do mundo todo; 3) que houve uma combinação de fatores que fizeram com que as questões de ordem interna fossem trançadas às internacionais, de maneira a determinar a fusão de interesses das partes. Neste caso, a indissolubilidade dos motivos espanhóis do tecido geral teria motivado a Guerra.

Ainda em relação aos aspectos explicativos da "espanholidade" ou não da Guerra Civil Espanhola, cabe lembrar que há autores que qualificam a Espanha de antes da Guerra como uma sociedade atrasada, em descompasso com o resto do mundo civilizado, moderno e progressista. Em contraste, existem aqueles que percebem a Espanha da década de 30 deste século, como uma sociedade evoluída em termos de relação de produção e trabalho, particularmente no que toca à questão sindical e à autogestão.

Autores como Ricardo de La Cierva, representando a historiografia oficializada por Franco, professam a versão da República como impossível e acentuam os defeitos da esquerda e da Frente Popular. Para aquele autor, fica evidente o esforço para exibir a penetração soviética e a reação da direita organizada para defender a ordem, a monarquia e o catolicismo. Estes, segundo ele, eram os "valores essencialmente espanhóis".

Pesquisadores, mesmo estrangeiros, que estiveram na Espanha durante o conflito, mostram-no como um aspecto inevitável decorrente de velhos dilemas que se enraizavam no antigo regime, desde a restauração de 1874. Outros ainda situam a problemática da Espanha na Guerra de Independência (1808-14) e, a partir de um pressuposto interessante — a "Espanha sem Rei" —, mostram a participação popular como progressista quando o Estado estava sem Monarca.

Para jornalistas/repórteres, como Gerald Brenan, fica evidente que a internacionalização da guerra foi decorrência da conjuntura internacional e que a Guerra Civil Espanhola, em si, pouco ou nada teve a ver com os fatos externos. Neste sentido, a internacionalização foi uma decorrência do contexto externo que se apropriou da situação espanhola.

Outros analistas estrangeiros, por outro lado, obedecem a uma tendência mais ou menos normal que caracteriza a Guerra Civil num quadro internacional, amplo o suficiente para justificar que, na Espanha, estariam sendo jogadas algumas das principais polarizações políticas inauguradas no século XX. Broué e Preston, entre outros, mostram que a partidarização política em escala mundial, mais a globalização, a problemática do capitalismo e do socialismo e, além disto, a presença de uma mídia fortalecida desde a Primeira Guerra Mundial seriam os responsáveis pela colocação da Guerra Civil Espanhola como capítulo do problema internacional.

Procedendo a uma neutralização dos problemas mundiais, em particular, em vista do crescimento do fascismo com o alargamento dos problemas internos da Espanha, autores como Hugh Thomas e Gabriel Jackson mostram que o advento da Guerra Civil Espanhola deve ser balizado a partir de 1917, com a definição do esquema socialista internacional. O marco divisor para estes autores seria a Revolução Russa e a saída russa da Primeira Guerra Mundial. Portanto, nota-se a eleição de fato externo motivando a aceleração dos problemas internos da Espanha.

Mais do que identificar as percepções historiográficas sobre a Guerra Civil Espanhola vale explicá-las. Duas ordens de justificativas se apresentam. Num primeiro momento, vale lembrar que a Guerra foi vencida pelos golpistas, autodenominados nacionalistas, militares que sublevaram-se contra o governo instituído, autodenominado legalista. Os republicanos, vale repetir, estavam no governo desde as eleições diretas de 36.

A derrota do governo na Guerra Civil Espanhola e o exílio dos vencidos provocou a inviabilidade de, pelo menos até 1975, se escrever uma história do conflito que contemplasse também os pontos de vista dos perdedores. Neste vácuo, situa-se a fronteira entre os advogados da história oficial, dos vencedores, em contraste com a inexistência de uma história dos perdedores. A censura e, mais do que ela, a cultura saneadora imposta pelo franquismo corresponde ao silêncio dos perdedores. Curiosamente, este vazio foi preenchido pela historiografia estrangeira que, mesmo no caso da esquerda, "desespanholizou" os argumentos centrais que justificaram, pela via espanhola, a deflagração da Guerra.

Um indicador interessante para se entender o teor espanhol ou internacional da Guerra Civil Espanhola é a definição da raiz da Guerra. Muitos autores internacionalizam a Guerra Civil a partir do projeto político-partidário na Espanha. Autores como Preston sintonizam esquerda e direita espanhola em nível internacional. O mesmo faz Felix Morrow que subtrai o conteúdo específico e particular da Guerra, tendendo a uma visão geral e generalizante dos fatos. Dessa forma, estes autores negam o caráter revolucionário da história da Espanha.

Nem só às tendências historiográficas se devem às explicações sobre o vínculo entre a percepção espanhola e a internacional da Guerra Civil Espanhola. Em muitos casos, o controle dos arquivos implicou possibilidades (ou não) de estudos. Neste sentido, cabe lembrar que Franco, ao tomar cada cidade, tinha por regra de conduta avançar com suas tropas, recolhendo todo tipo de documentação existente. 
Esse formidável material apreendido ficou crivado por anos de censura e por um controle que não permitia a elaboração de uma história crítica do conflito. Além do mais, a cultura governamental impunha uma versão integral da história da Espanha e, neste contexto, a história da Guerra Civil Espanhola teria um papel importante no qual, evidentemente, o mal era representado pelos republicanos (socialistas, comunistas, anarquistas) e o bem pelos nacionalistas (franquistas) que defendiam os princípios da monarquia, do catolicismo, da propriedade privada, da família e da tradição. Em continuidade a um processo que se teria iniciado na fase da expansão marítima, os ideários guardados pela monarquia estariam ameaçados e aos "soldados da pátria" caberia sua defesa. Assim, a manutenção dos arquivos tornou-se fator político fundamental para os franquistas.

Os perdedores, por terem que deixar a Espanha em precárias condições, não puderam levar 
consigo suas bases documentais. Evadidos, não lhes seria possível transferir as fontes capazes 
de nutrir argumentos que lhes fossem favoráveis. 
Isso justifica a tendência literária que assumiu, sempre, grande parte da produção analítica dos exilados. Por outro lado, o cinema e as revistas ensaísticas foram, aos poucos, gerando uma série de 
saberes que se completavam, possibilitando uma interpretação 
dos vencidos em relação à Guerra Civil Espanhola.

O fato da Guerra Civil Espanhola ter implicado em um 
formidável contingente de jornalistas, escritores, artistas fez com que 
o movimento ganhasse visibilidade mundial. A imprensa, organizada em escala de divulgação 
global desde a Primeira Guerra, possibilitava o conhecimento dos fatos, arrebatando a opinião 
pública. Este foi outro nível de internacionalização. A sutileza da compreensão desta atividade 
exige cuidados particulares, posto que a internacionalização deu-se também — e principalmente —, em nível artístico, pela esquerda.

A simpatia pelos legalistas republicanos provocou uma comoção mundial que dimensionou uma unidade argumentativa em favor da causa assumida pela esquerda. A existência de uma comunidade internacional de pessoas proeminentes, favoráveis aos republicanos, possibilitou uma linguagem universal que se manifestou através de vários movimentos artísticos, humanitários e políticos.

A persistência, através dos tempos, de uma reflexão sobre a Guerra Civil Espanhola e suas conseqüências tem gerado alternativas de estudos sobre aquela experiência que a abordam como
um dos grandes traumas do século XX. A mídia, por outro lado, tem insistido no tema, tornando-o
um elemento constante da cultura contemporânea. Grandes sucessos da literatura e do cinema,
como Por quem os sinos dobram e Ay Carmela — para citar apenas dois exemplos situados em tempos distintos — demonstram esta manifestação.
 

Durante a fase da contracultura, nos anos 60, num processo de revisão dos valores éticos da nossa sociedade, autores e temas até então evitados começaram a aparecer. Este, por exemplo, é o caso
de figuras como Simone Weil, Emma Goldman, Lilian Helman, Albert Camus que estiveram diretamente envolvidos na Guerra Civil Espanhola. As obras desses personagens colocavam o conflito espanhol na ordem do dia.

O complexo processo de abertura política espanhola também resultava em argumento do debate
em torno da internacionalização ou do nacionalismo espanhol. Afinal, tornava-se necessário
explicar como a Espanha ressurgia no contexto europeu como uma das economias mais
expressivas do mundo, passando inclusive o Brasil. Por ser considerada, atualmente, como a
oitava economia do mundo e um dos exemplos mais significativos de democracia, a Espanha
tem desafiado a coletividade que clama por análises históricas de seu passado recente.

As vicissitudes da historiografia da Guerra Civil Espanhola, em particular o efeito divisor de
águas ocasionado pelo exílio e pela cultura franquista, impôs, pelo menos, um problema interpretativo vital: qual o significado da Guerra Civil para os espanhóis e qual o seu sentido
para os estrangeiros? Aqui, vale retomar o que disse o jornalista inglês, testemunha ocular do conflito, Herbert L. Matthews, ao escrever:

Quase todos os espanhóis pensavam na sua Guerra Civil em termos nacionais, enquanto quase todos nós, por nosso lado, pensávamos em termos internacionais.

É importante lembrar que, mais do que esgotar o assunto, a retomada deste tema em uma discussão sobre a Segunda Guerra Mundial sugere reflexões sobre o nível de "ideologização" que permeia as análises. A esquerda internacional e internacionalizante tem sido eficiente ao exibir um esvaziamento do teor da Guerra Civil Espanhola como fato espanhol.

A direita também. Os nacionalistas não ficam atrás. De tudo isto, o que resta pensar é na responsabilidade dos historiadores contemporâneos a quem se apresentam dois caminhos: o conhecimento da historiografia e o domínio dos arquivos.

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J. C. Sebe Bom Meihy
Professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo.

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