A Hora da
Estrela
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Macabéa, ou Pedro, ou João, ou Maria, ou
Graziela, não interessa

Graziela ALVES
grazialves@ibest.com.br


Análise da obra de Lispector:
A Hora da Estrela


A Hora da Estrela de Clarice Lispector, é um “romance” diferente de todos os já lidos, isso
se deve ao fato de a escritora fazer um jogo de personagens, tentando até mesmo se excluir 
como narradora, mas que por fim, acaba por se contradizer mostrando realmente quem era,
além de narradora, também personagem na figura de Rodrigo (narrador-personagem criado por Clarice); Rodrigo que também as vezes se confundia com Macabéa, personagem criada por ele (e consequentemente por Clarice), já que essa (Macabéa) é criada e levada a morte por essa descrição, descrição marcada com uma linguagem que a desfigura 
e a constrói ao mesmo tempo.
Na verdade, a expressão “romance” supra citada, foi propositadamente posta entre aspas, pelo motivo de que a própria autora, não sabia, ou melhor, não queria, classificar sua obra como romance, ou como novela, enfim, pois para Clarice, não mais importava essa questão de classificação em gêneros, para ela o texto apenas existia, seu encaixe em determinado gênero não iria mudar nada, o que está escrito, está escrito e pronto, cada leitor é que deveria tirar suas próprias conclusões.

Os leitores de A Hora da Estrela podem estar se perguntando o porquê de Clarice ter criado 
Rodrigo para narrar a história de Macabéa, isso ocorreu porque ela queria narrar de forma 
distante, sob o ponto de vista masculino, já que se fosse a narração feita por uma mulher, com certeza teríamos um cunho mais sentimental, e não era esse o interesse de Clarice, ela refletia. muito sobre a situação de submissão das mulheres, ela achava que a felicidade só acontecia
ao lado de um homem, por isso também a história é narrada por um homem, para que fosse
afastada de todo esse sentimentalismo lacrimoso das mulheres, “homem não chora”.

Clarice Lispector, sofria muito com a posição dos críticos, que diziam que sua obra não estava de acordo com o esperado na época. Argumentavam que suas produções não tinham um cunho social, que era o que marcava os textos daquele momento. Na verdade, toda a obra de Clarice não tinha mesmo essa preocupação, ela escrevia e pronto, não procurava escrever sobre o que os outros estavam acostumados a ouvir, ou querendo ouvir. Desde nova, quando escrevia histórias infantis
ao jornal de Pernambuco, seus textos não eram publicados, por se tratarem, segundo o editor do jornal, de textos muito fragmentados e complicados.

É relevante pontuar, que a obra de Clarice realmente não é simples de se ler, ela requer
uma certa reflexão do leitor, as cenas não estão descritas de forma tão explícita, de modo que 
não nos leve a uma reflexão mais profunda, no entanto, em A Hora da Estrela, Clarice tentou 
“retratar” um pouco essa questão social, não de forma tão explícita, mas sim nas entrelinhas. Pode-se notar isso, quando ela, por exemplo, fala do médico, médico de pobres, que como 
acontece no dia-a-dia odeia o que faz, e as pessoas menos favorecidas têm que se 
submeterem a esse tipo de serviço, com esse tipo de “profissional” que não está satisfeito 
com o que faz e com a quantia que recebe.

Percebe-se também, essa questão citada acima, na própria história de Macabéa, que é a história
de milhares de nordestinos (pobres), que vem para a cidade grande tentar ser alguém na vida,
ocupar o seu espaço, e o que acontece? Nada de novo acontece, vêem e, na maioria das vezes, passam por situações piores do que as que viviam no interior, em sua terra natal. 

Se essas pessoas eram pouco importantes, insignificantes onde viviam, serão mais ainda na 
cidade grande, na capital, onde cada um quer saber de si, onde cada um tem que “se virar”, onde amizade, solidariedade, são palavras que não existem. Essas pessoas passam a ser apenas mais 
um dentre tantos; são pessoas substituíveis, que tanto faz morrerem ou não, existirem ou não.

É justamente sobre essa questão da inutilidade, do “ser mais um”, que trata o “romance”
A Hora da Estrela, que mostra esse processo de massificação a que todos estamos submetidos. Nessa narração, ou melhor, metanarrativa, a autora quer justamente nos levar a essa reflexão, afinal, quem somos? Para que vivemos? Qual é o nosso papel na sociedade? Será que fazemos
falta, ou somos apenas mais um? Somos importantes? Será que no fundo, também não somos
uma Macabéa da vida?

Quando lemos o livro, muitas vezes rimos da personagem Macabéa, mas será que no fundo,
bem lá no fundo não nos parecemos com ela? Quantas vezes não sabemos quem somos e o que estamos fazendo nesse mundo? Também não vamos empurrando a vida com a barriga, e seguindo
um rotina fatigante, achando que é assim mesmo, que assim está correto, está bom. Imaginamos
que a única diferença que temos de Macabéa, é que nós, ainda por cima, reclamamos dessa vida e ‘Maca” não, ela não tinha essa consciência, para a personagem, tudo estava bom, perfeito, até o momento em que a cartomante através da linguagem lhe mostra o futuro, felizmente
(ou infelizmente) ela teria um destino.

É mister, deixarmos claro, que Macabéa, não tinha a oportunidade de ter uma outra perspectiva, tinha que agir assim mesmo, porque ela era um ser excluído da sociedade, e esta, não dava
margem para que ela fosse alguém na vida. No entanto, as vezes, Macabéa dava-nos a
entender que tinha
um pouco, mesmo que muito raramente, consciência de sua inutilidade, quando por exemplo, Olímpico pergunta à ela sobre seu nome, e ela diz que não tem importância, que ela não é importante, ou quando acordava pela manhã e imagina, quem sou eu? E respondia: sou virgem, datilógrafa e gosto de coca-cola, (ela, sempre procurava lembrar quem era, já que os outros não percebiam, até mesmo para ela própria não se esquecer). Mas a percepção concreta dessa sua inutilidade ela não tinha, aliás, ela nunca aprendeu a pensar, só repetia o que ouvia dos outros, principalmente da rádio relógio, que ensinava uma “cultura” inútil.

Maca era ingênua, a tal ponto que chegava a agradecer e pedir desculpas quando os outros a ofendiam, ela era apenas mais uma, ia a lugares comuns e sonhava em ser uma estrela de cinema, apesar, é importante deixar claro, de ela estar (demonstrar) satisfeita com sua situação. Temos
esse ponto em comum com a personagem, de querermos ser uma “estrela de cinema”, também
nós sempre temos o desejo de ser alguém, nunca estamos satisfeitos com o que somos. Apesar de, vou reforçar mais uma vez, que Macabéa, não tinha essa consciência, ela desejava e pronto, do mesmo modo que comia, trabalhava e ouvia rádio, era apenas, mais uma atitude e não um desejo
obsessivo, um objetivo de vida.

Aliás, objetivos, perspectiva, ambição, eram sentimentos que Macabéa nunca teve, ela, sempre
foi construída como a ausência de tudo, ou seja, a que não tem. Ela é um não, idéia de nada, ela
não tem família, não tem namorado, não tem dinheiro, não tem sensualidade (ela só se descobre sensual depois das palavras da cartomante). Olímpico, o namorado de Maca, era também um nordestino que havia vindo tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro, mas diferente de Macabéa, ele queria crescer na vida, mesmo por meios ilícitos, e ela nem isso queria. Na verdade Maca, só
ao entrar em contato com a cartomante é que começa a refletir, se é que se pode dizer isso, sobre sua existência, Madama Carlota foi a única que achou seu nome bonito, que a chamou de florzinha, foi a primeira vez que foi reconhecida como gente, apesar de percebermos que Carlota fazia isso, porque era seu papel iludir as pessoas, encher “os miseráveis” de esperança.

Ao ouvir a cartomante, Macabéa se sente grávida do futuro, é a primeira vez que lhe vem a mente, uma certa perspectiva, um destino, que como sabemos é trágico. Justamente quando ela imagina
que vai começar a viver é que a morte lhe toma a vida. Mesmo assim, é relevante deixarmos claro, que mesmo acidentada, atropelada, Macabéa em sua ingenuidade se senti feliz e acredita que sua vida está mudando para melhor, pobre sabe ela que sua vida está terminando, aliás, podemos
tirar a conclusão de que de certo modo ela estava correta, quem sabe com a morte física ela não poderia viver, já que enquanto estava viva ela simplesmente vegetava, era apenas “
cabelo na sopa”.
A idéia conclusiva que podemos chegar é que a única saída para Macabéa, era nada mais, nada menos que a morte, esse é o destino de todos (morte física), apesar de muitos já estarem mortos antes mesmo de morrem literalmente, principalmente essas pessoas excluídas, Macabéa só foi alguém, só foi percebida no mundo, quando foi atropelada, atrapalhando o tráfego, como já dizia Chico Buarque, em sua música Construção. Na verdade somos o nada, como Macabéa, só somos percebidos por um instante, quando a vida nos coloca nessa situação que é a morte, enfim, nesse momento encontramos nosso lugar, mesmo que na calçada (que não é a da fama, mais uma comum), que por um instante se torna o palco, o picadeiro, o cenário de um estrelato. Macabéa enfim, consegue ser vista, sentir-se gente, uma verdadeira estrela.

No próprio momento de sua morte física, é que Maca se sente mulher, sente um gozo por si, é a primeira vez que se toca e se abraça como sentindo uma estima por si mesma, é o ápice, o clímax
da narrativa. Aliás, a morte se torna a personagem principal desse metarromance. A morte é a
única figura que consegue dar um fim a essa história, se não terminasse assim, não teria fim, pois a todo momento Rodrigo já nos deixa claro e nós também já, de certa forma, imaginamos que não
resta a Maca um outro destino senão esse, e que é o final de todos nós. De repente só morrendo é que podemos sentir e descobrir quem somos (éramos).

Muitos filósofos, já desde a antigüidade, vem tentando descobrir quem somos, e na verdade
nunca se chegou a uma conclusão, essa é uma pergunta que nunca terá uma resposta, somos o
que vivemos e pronto, e se isso está correto ou errado, não sabemos, talvez um dia possamos descobrir, como Macabéa, mas isso ninguém sabe. Apenas vamos vivendo, e afinal, o que é a
vida senão uma busca constante?

Constatamos, também, que como Macabéa, muitas vezes, estamos vegetando, já estamos
mortos, mesmo estando vivos, pois como já dizia Charlie Chaplin “O homem não morre quando
deixa de viver, mas sim quando deixa de amar”. Toda essa narrativa também nos remete, com
toda certeza, a própria história de vida de Clarice Lispector, desde cedo perde a mãe, assim
como Macabéa que não lembrava dos pais, também veio do nordeste para tentar a vida no Rio
de Janeiro, e por fim Clarice também, principalmente após sua separação, seu acidente com o cigarro (apartamento pegando fogo) e com sua doença (câncer no útero), não tem mais um
objetivo na vida, uma meta, uma perspectiva, apenas espera sua morte física, porque sua morte interna já havia ocorrido a muito tempo.

Macabéa, Rodrigo, Clarice, representam todos nós, um nada, que vivemos em busca de
entender o que somos, e quando descobrimos é tarde demais, como sempre, descobrimos tudo
tarde demais. Somos pó e ao pó iremos voltar. Na verdade, cada um constrói a sua história, boa
ou ruim, mas constrói, quem somos nós para julgarmos Clarice, Rodrigo ou Macabéa? Se somos como eles, simples mortais que temos que lutar diariamente, para sobrevivermos nessa labuta constante que é a vida em sociedade. Quantos de nós também não queríamos uma cartomante, mesmo que charlatona, para nos dá uma esperança, para nos transformar em alguém, para
também como Macabéa, deixarmos de ser ausências apenas. Será que somos o que queremos,
ou simplesmente queremos ser.

Quantas vezes, quando estressados, não gostaríamos de ser como Maca simplesmente, não
pensar em nada e achar que tudo está muito bom? Mas não, temos essa tendência a complicar
as coisas, a reflexão, ao estresse.
São essas reflexões que todo o tempo Clarice quer nos repassar, que são também, como já havia citado, suas próprias reflexões, e acho que muito mais do que retratar a realidade, ela conseguiu levar-nos a uma introspecção, a um estudo sobre nós, nossa vida e a sociedade. Clarice foi mestre, conseguiu escrever de forma diferente, nova, sem ser rebuscada, até mesmo porque o narrador-personagem Rodrigo, não podia escrever de forma erudita para poder se aproximar da personagem Maca. Esse não é um livro comum, e não foi escrito para qualquer um ler, na verdade,
o “romance”, não tem público, como alguns críticos e o próprio Rodrigo nos deixa entender.

A própria sugestão de vários títulos foi inovador, tudo nesse livro nos remete a algo novo,
segundo Gotlib, o livro se divide em cinco histórias, sendo que a última só quem lê o “romance”, descobrirá, Gotlib nos remete novamente aos títulos, que se formos ler o livro sob a perspectiva
de determinado título, teremos uma história nova, aliás, sempre que lemos novamente uma obra, independente de mudarmos ou não o nome dela, temos uma nova visão, pois como já dizia, se eu
não me engano, Heráclito, “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. A cada leitura é um
nova descoberta, e a autora quer justamente deixar ao leitor esse trabalho de reflexão, de construção. Nós leitores temos que tirar nossas próprias conclusões.

E é justamente por isso, que a história se torna interessante, até mesmo porque, como já citei
várias vezes, nós mesmos nos identificamos muito com os personagens desse metarromance. Estamos constantemente buscando essa “Hora da Estrela”, muitas vezes também não nos encaixamos em lugar nenhum, a autora quer deixar isso bem claro, que não existe no mundo
lugar para pessoas como Macabéa

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Graziela Alves
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Licenciada em Letras (Português/Inglês) pela UNIVALI e Pós-Graduada em Práticas
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