Laços de
Família
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LAÇOS DE FAMÍLIA
 
Clarice Lispector
Laços de família é um dos pontos máximos da prosa de
Clarice Lispector, talvez o supra-sumo de seus contos.

Publicado em 1960, Laços de família é um dos pontos máximos da prosa de Clarice
Lispector, talvez o supra-sumo de seus contos. As narrativas dessa obra usam constantemente o fluxo de consciência, por meio do qual conhecemos o universo mais íntimo das personagens.
É um expediente que autoriza sua literatura a ser chamada ora de psicológica,
ora de introspectiva.
Suas personagens são sempre flagradas no momento em que, a partir do cotidiano
banal, alcançam o lado misterioso, inusitado, diferente da existência humana, mesmo que não
consigam entendê-lo. No fim, acabamos nos deparando com histórias de exteriorização do
oculto, em que o protagonista termina buscando, nos elementos exteriores, o seu interior.
Ou seja, a busca da identidade passa pela busca do outro, seja humano, animal ou objeto.

O primeiro conto é Devaneio e embriaguez de uma rapariga, que chama a atenção pelo
virtuosismo da autora de reproduzir com fidelidade as expressões típicas de Portugal
(lusitanismos) no fluxo de consciência da protagonista, de fato portuguesa. Essa personagem
está entediada com seu papel de esposa e mãe de família, chegando a relaxar em suas tarefas
de tal forma que, presa à cama, o marido pensa que está adoentada. É o tédio que se instala.

Uma mudança ocorre quando ela e o marido vão jantar com um rico negociante. A protagonista embebeda-se, o que lhe abre caminho para a explosão de vida, longe da mesmice do cotidiano.
Fica sempre na vertigem da saída de seus limites, algo até próximo do vexame, mas sente-se segura por ser amparada pela presença de seu marido.

Sua felicidade chega a ser comprometida com a chegada no restaurante de uma loira, dona de um padrão de beleza mais em voga na sociedade. A humilhação parece ficar consagrada pelo fato de a nova figura portar chapéu, ao contrário da portuguesa.

O jogo é virado quando a portuguesa percebe, ao olhar para a cintura fina da moça, que esta
estaria impossibilitada de parir. Conclui: bonita, mas ineficiente no que seria sua função
feminina. Isso talvez explique a comparação que a protagonista faz entre si e uma vaca:
leite, maternidade, vida.

O resto do conto dedica-se ao triunfo da portuguesa, em meio a uma náusea provocada pela bebedeira, que lhe faz sentir o corpo agigantado. Atinge, aí, sua epifania. Sente-se bem. É
esposa e mãe de família. Em meio à sensação de que o leite está estourando em seu seio,
determina que arrumará sua casa, colocará seu lar nos eixos. Assume majestosamente
o seu papel feminino.

O segundo conto é Amor, cuja protagonista é outra dona de casa, que passa sua vida cuidando
do lar e da família, como uma maneira de ocupar o tempo e fugir de si mesma. Nota-se,
pois, que não está feliz.
Numa tarde, enquanto todos estavam ausentes, resolve fazer compras. No caminho de volta,
no bonde, uma cena inusitada ocorre: vê um cego mascando chiclete. Esse ato maquinal feito
na escuridão talvez possa ser comparado ao estilo de vida da protagonista. Com certeza, foi
um detonador de desequilíbrio na existência insossa da personagem, o que fica simbolizado
no tranco que o bonde dá, provocando a queda de suas compras.

Tão atrapalhada a personagem fica, que desce no ponto errado. Dirige-se ao Jardim Botânico.
É o momento e o lugar de sua epifania. Diante das árvores, sua emoção é muito grande.
Esses vegetais davam frutos, mas também eram sugados por parasitas, o que lhe deu um
incômodo nojo (seria uma metáfora de sua condição feminina?).

Perde tanto a noção do tempo que, quando se lembra de que tinha uma família para cuidar,
descobre que o parque estava fechado com ela dentro. Enquanto se esforça para encontrar
alguém que lhe permitisse a saída, realiza uma inversão de valores. Se antes achava anormal, loucura um cego mascando chiclete, agora é o seu próprio estilo de vida, de dona de casa, mergulhado em rotinas domésticas, que se torna uma loucura.
Consegue voltar, dedicando-se ao seu marido e aos seus filhos. Ama-os, mas agora de uma
forma incomodante; ama-os sentindo até nojo.

O terceiro conto, Uma galinha, pode ser resumido na seguinte indagação do narrador: "Que
é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser?". É a história de uma galinha que foi
comprada para servir de refeição a uma família, mas que consegue fugir num vôo prodigioso
e desajeitado. É a luta por vida, mesmo que numa existência da forma mais instintiva.

No entanto, é perseguida pelo chefe da família, numa pândega corrida pelos telhados da
vizinhança, até ser agarrada. De volta ao lar opressor, no meio do estresse misteriosamente
a ave bota um ovo. Mais uma vez a imagem da feminilidade associada à maternidade.
Tal ato mostra-se tão sagrado, pois que à véspera da morte ela dá vida, que acaba sendo
poupada, tornando-se o xodó da casa.

O tempo passa, e com ele talvez todo o aspecto divino de sua feminilidade. Um dia acaba
por servir de refeição.

O quarto conto é A imitação da rosa. Laura, sua protagonista (outra dona de casa), é
extremamente perfeccionista. É tão metódica que arruma a casa e a si muito tempo antes
do compromisso que tem à noite, só para estar disponível para ajudar o seu marido a se
trocar de roupa.

O clímax surge quando vê um buquê de rosas, algo tão comum, que pareceu naquele
momento inusitado. É uma metáfora da feminilidade e da perfeição. Quase uma representação
de Laura, que só não é completamente perfeita no seu papel feminino porque não tem filhos.

Sente a tentação de mandar as flores para sua amiga Carlota, que lhe é exatamente o oposto
no quesito perfeição. Mas por que dar algo que é o melhor de si? Por que não ficar elas? Não
teria mais direito? Até que conclui que seria coerente com seu senso de perfeição enviá-las.

O quinto conto, Feliz aniversário, é sobre uma festa em comemoração aos 89 anos de
D. Anita. Toda a família reúne-se, todos ali saídos, gerados da matriarca. No entanto, esses
laços de família são apenas formais, pois o grupo está presente apenas por obrigação.
Não há mais emotividade em relação à velha, muito menos entre si. Tudo é artificial, forçado.
D. Anita percebe que todos ali lhe são alheios, não parecem terem saído dela. É quando
sente nojo. Em meio à festinha, cospe. Um ato escandaloso, mas que acaba sendo
desculpado em nome da idade da senhora.

Nesse momento D. Anita triunfa sobre sua família. Um dos seus filhos, empolgado em fazer discursos, no final da festa despede-se com um "Até o ano que vem". Era um indicativo de que, apesar da mediocridade de sua família, D. Anita os superava, estava acima deles.

A menor mulher do mundo, o sexto conto, é carregado de aspectos líricos e simbólicos.
Narra a descoberta da menor integrante de uma isolada e frágil tribo africana de pigmeus,
os Likoualas. É o elemento mais pária dos párias. Assemelha-se à galinha do conto Uma
galinha, ou a Macabéa, de A hora da estrela. E o mais inusitado é que Pequena Flor (este é o
nome que ela recebeu) está grávida. Carrega dentro de si o mais precioso segredo da
feminilidade: a maternidade.

A notícia da descoberta desse minúsculo ser humano espalha-se pelos jornais, causando
as mais diferentes reações em seus leitores, desde a alienação, até o assombro, passando
pelo lirismo, revolta e encanto. Mas destaca-se o mal-estar do cientista-explorador que a
descobriu, pois sabe que o menor dos seres carrega uma vida, e a sagacidade de uma senhora,
que encerra o conto quando fecha o jornal que estava lendo é diz: "Deus sabe o que faz".
Dentro de uma cena banal, o mistério da vida.

O sétimo conto é O jantar. É o primeiro a apresentar o foco narrativo centrado numa figura masculina, que se põe a observar com detalhismo incrível um outro homem jantando.
Na realidade, não é uma simples janta, mas um espetáculo do vigor primitivo diante do
mais primordial ato da existência: alimentar-se. A metáfora para isso está na mão pesada e
cabeluda do faminto manipulando os diferentes manjares.

Todo esse show esfria quando o degustador pede a sobremesa, que é classificada como
medíocre em comparação a toda a encenação anterior, e principalmente quando põe óculos
para pagar a conta. Nesse momento o observado - talvez longe do aspecto mais primitivo -
parece ter envelhecido.

O oitavo conto, Preciosidade, tematiza delicadamente a iniciação feminina. Sua protagonista
é uma menina que vivia a constante tensão de sempre se guardar. Sabia que possuía uma preciosidade, pois é uma mulher, mas nem sequer pensava no potencial que ela permitia.
Temia a possibilidade dos homens por onde ela passava fazerem ou mesmo falarem alguma
coisa proibida. Vivia, pois, na tensão da possibilidade de um ataque à sua feminilidade.

Flagramos a menina no início de um dia, preparando-se para ir à escola. Notamos o seu
caráter desleixado, pois, como tem de sair cedinho, ninguém a vê e ninguém a fiscaliza.
Por isso, não tem que se preocupar em tomar banho.

Uma reviravolta acontece. Na escuridão do caminho, perde sua preciosidade: é tocada.
A cena transborda um mutismo tenso, não só da vítima, mas também dos agressores.
Tanto que estes fogem, deixando-a por muito tempo paralisada, sem noção do tempo.
Quando volta a si, retoma seu caminho para a escola, chegando na terceira aula.

O fato de ter sido tocada indica ter sido desejada. Perdeu uma preciosidade, que de certa
forma era uma virgindade, mas acaba ganhando outra. Nasce mulher, com desejos. Por isso
pede a seus pais sapatos novos. Quer ser bonita, quer aproveitar a vida, quer ser amada.

O nono conto, Os laços de família, inicia-se com a despedida de Severina, que havia passado
alguns dias na casa de sua filha, Catarina. Enxerga-se aqui a riqueza das relações familiares,
apesar das comuns faltas de jeito, dos interditos, do silêncio. O marido de Catarina,
engenheiro (típico representante do pragmático, do certinho, do ajustado), não se
relacionava bem com a sogra, o que parecia ser recíproco, mesmo que os conflitos se
mostrassem surdos. No entanto, na despedida, apresenta-se de ambos os lados uma
cordialidade surpreendente.

Mais interessante é a relação entre mãe e filha. Querem se despedir, mas não conseguem
usar as palavras na adequada sinceridade. É difícil para Catarina dizer para a mãe que a ama.
A mesma dificuldade deve estar do lado de Severina. Dessa forma, tudo cai na formalidade
dos laços de família, escondendo outros laços mais fortes.

Voltando para casa, depois da partida da mãe, Catarina pensa em seu filho, qualificado por
Severina como uma criança nervosa. Encontra-o ensimesmado, introspectivo, absorto.
Dá trabalho libertá-lo de seu mundo, chamar a sua atenção. Mas consegue. Resolve sair
com ele para um passeio, o que deixa o seu marido apreensivo. Misteriosamente ele sabe da explosão de sentimento, de amor que a esposa está tendo e que parece querer transferi-lo
para o seu filho. Talvez por isso ele exclame: "Catarina, esta criança ainda é inocente!"
Mas sua frase cai no vazio. Está sozinho. Da janela do seu apartamento, vê sua mulher e
seu filho passeando. Intui o laço misterioso que há entre eles. Sente-se mais solitário,
por estar excluído dessa ligação.

O décimo conto, Começos de uma fortuna, é diferente do conjunto, pois apresenta uma
personagem masculina, um adolescente. Trata-se de Artur, alguém que luta por atenção,
o que o faz adorar trocas. Como numa psicanálise, o narrador entra na gênese desse sentimento. Quando bebê, o menino adorava que as pessoas o abraçassem, o acariciassem, apertassem
sua bochecha. Mas estranhava que logo se cansavam e o largavam, tão cheio de vida, tão
carente, tão sedento por mais atenção. Paravam, saciavam-se, mas ele não, sempre
ficando no vácuo.

A dúvida é se as relações baseadas na troca de fato são autênticas. Parece ser esse o
problema que atormenta o garoto. Quer ir ao cinema com uma menina, mas não tem dinheiro
para tanto. Pede dinheiro para os pais (belamente duros e afetivos), no que é negado. Há a possibilidade, que se concretiza, de conseguir emprestado com um amigo, o que significa
contrair dívidas. E não pára de pensar em fazer fortuna, além de ficar na dúvida: não sabe
se foi explorado pela menina. Riqueza, dívida, exploração, troca, afeto, todos são elementos
que se misturam na mente de um adolescente que ainda é o bebê carente pedindo
mais atenção, mais carinho.

O próximo conto é Mistério em São Cristóvão, denso de simbologia. Em uma noite
tranqüila de maio, uma família composta de avó, mãe, pai, crianças e uma filha
aproveitam a abastança a que atingiram. A única insatisfação está no coração da moça.

Quando de madrugada todos foram dormir, surgem três homens fantasiados para um baile.
Um galo, um touro (o mais gordo) e um cavaleiro. Passam diante da casa abastada e
admiram o jardim. Invadem-no, para colher um jacinto, curiosamente a flor que chega a
representar os prazeres da existência. A idéia de equilíbrio, comodismo, abastança, é oposta
à de intensidade da vida. Viver é de fato um desequilíbrio.

Mas a flor não chega a ser de fato colhida. Fica pendurada no ramo quebrado. É que no
momento em que ia ser colhida, o homem-touro nota que estão sendo observados,
justo pela moça.

O lar desequilibra-se. Terror. Medo. Todos acordam, mas não conseguem ver o motivo do desassossego da moça - os rapazes haviam fugido, entregando-se desajeitadamente à festa
que os esperava. A ex-abastada família chega a duvidar que alguém tivesse estado lá, mas
obtém a certeza quando vê o talo quebrado da flor de jacinto. A partir desse momento, todos
se esforçam para reconquistar o equilíbrio em suas vidas. Menos a moça, agora dotada
de fios de cabelo branco.

O penúltimo conto é O crime do professor de Matemática, dotado de elementos religiosos
como missa, pecado, juízo final. Seu protagonista, um professor de Matemática (símbolo
da frieza, precisão, objetividade) vai até a parte mais alta da cidade enterrar um cachorro.
É uma forma de compensar o seu cão de estimação que havia abandonado. O que o animal
havia feito de errado? Nada. Apenas tinha feito do pedagogo o homem que seria seu dono.
Ser humano era uma tarefa que incomodava, assustava o mestre, principalmente quando
o bicho encarava, não cobrando nada, apenas humanidade.

No final, o homem desenterra o cão e se esquece do crime que havia cometido (abandonar o
cão ou não ter coragem de ser humano?). Desce a montanha (como se estivesse em posição
mais elevada, mais consciente de suas falhas e caísse na alienação?) e volta para o "seio de
sua família". Mergulha, provavelmente, na apatia de sua existência.

O último conto é O búfalo. Nele a protagonista, vinda de um fracasso amoroso de não ser correspondida, quer odiar. É provavelmente um mecanismo de defesa, de acordo com uma
frase que se fixa em sua mente: "Onde aprender a odiar para não morrer de amor?"
Dirige-se, portanto, ao zoológico, na esperança de que, em contato com formas tão
primitivas, conseguisse tão destrutivo sentimento.

No entanto, não encontra esse sentimento, muito menos atenção. Sua experiência parece
fadada ao fracasso. Até que passeia na montanha russa. Sentir-se jogada em todas as
direções é um solavanco semelhante ao vivenciado pela personagem de Amor.
É um desequilíbrio que abre caminho para experiências superiores.
Até que se depara com o torso volumoso de um búfalo, algo próximo da simbologia sexual
masculina. A protagonista parece desejá-lo, mas momentaneamente cai na mesma
armadilha do amar: é ignorada, pois o animal lhe dá as costas.

No entanto, em pouco tempo, como que instintiva e intuitivamente, o animal sente a
presença da mulher. Aproxima-se dela e a encara. É um contato fortíssimo, em que ela
sente a explosão de algo como um misto de ódio e amor, da forma mais primitiva e, talvez
por isso, mais intensa. É a sua epifania, que se assemelha a um êxtase sexual. O conto
termina com o desmaio da protagonista, que tem em seus últimos momentos de
consciência as idéias do céu e do búfalo misturando-se.
http://www.clarice-lispector.cjb.net/

BIOGRAFIA


Clarice nasce em Tchelchenik, na Ucrânia, em 1920. Chega ao Brasil com os pais e as
duas irmãs aos dois meses de idade, instalando-se em Recife. A infância é envolta
em sérias dificuldades financeiras. A mãe morre quando ela conta 9 anos de idade.
A família então se transfere para o Rio de Janeiro, onde Clarice começa a trabalhar
como professora particular de português. A relação professor/aluno seria um
dos temas preferidos e recorrentes em toda a sua obra - desde o
primeiro romance: Perto do Coração Selvagem.

Ela estuda Direito, por contingência. Em seguida, começa a trabalhar na Agência Nacional,como redatora. No jornalismo, conhece e se aproxima de escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos,
Alberto Dines e Rubem Braga.
Os passos seguintes são o jornal A Noite e o início do livro Perto do Coração Selvagem -
segundo ela, um processo cercado pela angústia. O romance a persegue. As idéias surgem a qualquer hora, em qualquer lugar. Nasce aí uma das características do seu método de
escrita - anotar as idéias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.

Em 43, conhece e casa-se com Maury Gurgel Valente, futuro diplomata. O casamento
dura 15 anos. Dele nascem Pedro e Paulo. No ano seguinte, ela publica Perto do
Coração Selvagem.
Em plena Segunda Guerra Mundial, o casal vai para a Europa. Perto do Coração Selvagem desnorteia a crítica literária. Há os que pretendem não compreender o romance, os
que procuram influências - de Virgínia Wolf e James Joyce, quando ela nem os tinha lido -
e ainda os que invocam o temperamento feminino. Influências?

Perto do Coração Selvagem recebe o prêmio da Fundação Graça Aranha. Nas palavras
de Lauro Escorel, as características do romance revelam uma "personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza
inteligente e sensível". Já no primeiro livro, identifica-se o estilo muito pessoal da escritora.
Nas páginas, Clarice explora pela primeira vez a solidão e a incomunicabilidade humana,
através de uma prosa inquieta, próxima da poesia em determinados momentos.

Rumo à Europa, os Gurgel Valente passam por Natal. De lá para Nápoles. Já na saída
do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de
deixar a família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de viagem,
escreve: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar".

Clarice permanece em Nápoles até 1946. Durante a II Guerra, presta ajuda num
hospital de soldados brasileiros. Uma dúvida: um serviço prestado como cidadã brasileira
ou como mulher de um diplomata brasileiro? Como escritora, ela sente a presença do sucesso.
Por telegrama, sabe do prêmio recebido pelo romance deixado no Brasil.
Mantém uma correspondência constante com os amigos que deixara para trás. Em Nápoles,
em 44, conclui O Lustre, livro iniciado no Brasil e que seria publicado em 1946.
Virgínia, a personagem principal de O Lustre, tem a história narrada desde a infância e
também aparece sob o signo do mal, tal como Joana, personagem do primeiro romance.
Em O Lustre, Virgínia mantém um relacionamento incestuoso com o irmão, Daniel, com
quem faz reuniões secretas em que experimentam verdades, na condição de iniciados especiais. Nessa época, Clarice Lispector se corresponde com Lúcio Cardoso, que não gosta do título
do livro: acha-o "mansfieldiano" e um pouco pobre para pessoa tão rica como Clarice.

No fim da guerra, Clarice é retratada por De Chirico. Em maio de 45, ela manda uma carta
às irmãs Elisa e Tânia, contando o encontro com o artista e falando sobre o final
da guerra na Europa.

Quando O Lustre é lançado, Clarice está no Brasil, onde passa um mês. De volta à Europa, transfere-se para a Suiça, "um cemitério de sensações", segundo a escritora.
Durante três anos, passa por dificuldades em relação à escrita e à vida pessoal. Em 46,
tenta iniciar A Cidade Sitiada, livro que sairia em 49. Vendo-se impossibilitada de escrever, coleciona frases de Kafka, referentes a preguiça, impaciência e inspiração.

Para Clarice, a vida em Berna é de miséria existencial. A Cidade Sitiada acaba sendo
escrito na Suíça. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma
que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro e por ter escrito
um dos livros "menos gostados". Terminado o último capítulo, dá à luz.
Nasce então um complemento ao método de trabalho. Ela escreve com a máquina
no colo, para cuidar do filho.

O período na Suíça caracteriza-se pela saudade do Brasil, dos amigos e das irmãs.
A correspondência que recebe não lhe parece suficiente. Até 52, escreveria contos, gênero
em que Clarice Lispector talvez não tenha sido alcançada na literatura brasileira.
Alguns Contos foi publicado em 52, quando ela já tinha deixado Berna, passado seis meses
na Inglaterra e partido para os Estados Unidos, acompanhando o marido.

Em carta às irmãs, em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de espírito... Em 95,
o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou
uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira.
Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o
estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de
humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."

Em 1950, na Inglaterra, Clarice inicia o esboço do que viria a ser A Maçã no Escuro,
livro publicado em 61. Antes de se fixar em Washington ela passa pelo Brasil.
Trabalha novamente em jornais, entre maio e setembro de 52, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal O Comício, no Rio, sob o pseudônimo de Tereza Quadros.
Em setembro vai para os Estados Unidos, grávida. Durante os oito anos de permanência
no país, vem ao Brasil várias vezes. Em fevereiro de 53, nasce Paulo. Ela continua a
escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores.
Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de
Laços de Família e a literatura infantil. O primeiro livro para crianças seria O Mistério
do Coelhinho Pensante , uma exigência do filho Paulo. A obra ganharia o prêmio Calunga,
em 67, da Campanha Nacional da Criança. Ela ainda escreveria três livros infantis:
A Mulher que Matou os Peixes, A Vida Íntima de Laura e Quase de Verdade.
Nos Estados Unidos, Clarice Lispector conhece Érico e Mafalda Veríssimo, dos quais
torna-se grande amiga.

Veríssimo e família retornam ao Brasil em 56. Entre os escritores, inicia-se uma vasta correspondência. No primeiro semestre de 59, o casal Gurgel Valente decide-se pela separação. Clarice volta a morar no Rio de Janeiro, com os filhos. Sobre o "conciliar" casamento/literatura, afirmava que escrevia de qualquer maneira, mas o fato de cumprir o seu papel como mulher
de diplomata sempre a enjoou muito. Cumpria a obrigação. Nada além. Na volta ao país,
mais um período de dificuldades afetivas e financeiras. Ela prefere a solidão ao círculo que
tinha relação com o ex-marido. O dinheiro que recebia como pensão não era suficiente, nem
os recursos arrecadados com direitos autorais. Clarice retorna ao jornalismo. Escreve contos
para revista Senhor, torna-se colunista do Correio da Manhã, em 59, e, no ano seguinte,
começa a assinar a coluna Só para Mulheres, como "ghost writer" da atriz Ilka Soares no
Diário da Noite. A atividade jornalística seria exercida até 1975. No final dos anos 60,
Clarice faz entrevistas para a revista Manchete. Entre 67 e 73 mantém uma crônica semanal
no Jornal do Brasil, e, entre 75 e 77, realiza entrevistas para a Fatos & Fotos.

A década de 60 principia com a publicação do livro de contos Laços de Família. Seguiriam-se
as publicações de A Maçã no Escuro, em 61, livro que recebeu o Prêmio Carmem Dolores
Barbosa, A Legião Estrangeira, em 62, e A Paixão Segundo G.H., em 64.

Uma escultora de classe alta, que mora num apartamento de cobertura num edifício do Rio,
resolve arrumar o quarto de empregada, cômodo que supõe, seja o mais sujo da casa, o que
não é verdade. O quarto é claro e límpido. Entre várias experiências desmistificatórias,
a crucial: abre a porta do guarda-roupa e se vê diante de uma barata. Embora afirme que
o livro não tem nada de experiência pessoal, admite que a obra fugira do seu controle...
 

Entre 65 e 67, Clarice dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta
um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos
idiomas e da republicação de diversos livros, a situação econômica de Clarice é muito difícil.
Em setembro de 67, acontece o acidente que deixa marcas no corpo e na alma da escritora -
um incêndio no quarto que ela tenta apagar com as mãos. Fica gravemente ferida, passa
3 dias entre a vida e a morte. Três dias definidos por ela como "estar no inferno."

Em 69, publica o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Em 71, a coletânea
de contos Felicidade Clandestina, volume que inclui O Ovo e a Galinha, escrito sob o impacto
da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro.

Os últimos anos de vida são de intensa produção: A Imitação da Rosa (contos) e Água Viva (ficção), em 1973; A Via Crucis do Corpo (contos) e Onde Estivestes de Noite, também
contos, em 74. Visão do Esplendor (crônicas), em 75. Nesse ano, é convidada a
participar, em Bogotá,
do Congresso Mundial de Bruxaria. Sua participação limita-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha. No ano seguinte, Clarice Lispector recebe o 1° prêmio do X Concurso Literário
Nacional, pelo conjunto da obra.

Em 77, concede entrevista à TV Cultura, com o compromisso de só ser transmitida após a sua
morte. Ela antecipa a publicação de um novo livro, que viria a se chamar A Hora da Estrela, adaptado para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral.

Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário.
Queria ser enterrada no Cemitério São João Batista, mas era judia. O enterro aconteceu no Cemitério Israelita do Caju. Postumamente, foram publicados Um Sopro de Vida, Para Não
Esquecer e A Bela e a Fera.

Fonte: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/clarice/clarice.htm
http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/bio.htm


OBRAS DE CLARICE LISPECTOR


Prosa

Perto do coração selvagem - romance - 1944
O Lustre - romance - 1944
A cidade sitiada - romance - 1949
Alguns Contos - 1952
Laços de família - contos - 1960
A maçã no escuro - romance - 1961
A legião estrangeira - contos e crônicas - 1964
A paixão segundo GH - romance - 1964
Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres - romance - 1969
Felicidade clandestina - contos - 1971
A imitação da rosa - contos - 1973
Água viva - ficção - 1973
A via-crucis do corpo - contos - 1974
Onde estivestes de noite - contos - 1974
De corpo inteiro - entrevistas - 1975
Visão do esplendor - crônicas - 1975
A hora da estrela - romance - 1977
Para não esquecer - crônicas - 1978 
Um sopro de vida - 'pulsações' - 1978 
A bela e a fera - contos - 1979 
A descoberta do mundo - crônicas - 1984

Livros infantis

O mistério do coelhinho pensante, 1967
A mulher que matou os peixes, 1969
A vida íntima de Laura, 1974
Quase de verdade, 1978
Como nasceram as estrelas, 1984
Leia Também....

Quincas Borba de Machado de Assis

O Cortiço de Aluisio de Azevedo

Riobaldo Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

Um Certo Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo

A Hora da Estrela de Clarice Lispector

Relato de um Certo Oriente Milton Hatoum

O Livro das Ignorãças  de Manoel de Barros

Leituras Para o Vestibular  -  Click no Título

ESAÚ E JACÓ
Machado de Assis

INSÔNIA
Graciliano Ramos

MEMÓRIAS DE CÁRCERE - 2 Volumes
Graciliano Ramos

AGOSTO
Rubem Fonseca - Record

A ERA VARGAS

Maria Celina D'Araujo - Moderna

CIRANDA DE PEDRA
Lygia Fagundes Telles

AS CIDADES E AS SERRAS

Eça de Queirós

A MORENINHA

Joaquim Manoel de Macedo

A NORMALISTA

Adolfo Caminha

A RELÍQUIA

Eça de Queirós

AMOR DE CAPITU

Fernando Sabino

AS PUPILAS DO SENHOR REITOR

Júlio Diniz

REVISTA NOVA ESCOLA
CONTOS PARA CRIANÇAS
Editora Abril

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