A partir de uma proposta do cineasta Paulo Thiago que queria filmar o
poema "O Caso do Vestido" de Carlos Drummond de Andrade - o
romancista mineiro Carlos Herculano Lopes escreveu um argumento para o
roteiro do filme, que acabou virando um romance.
Indicado para o Vestibular 2007 |
Carlos Herculano Lopes nasceu em Coluna, Minas Gerais. Reside em Belo
Horizonte.
Formado em jornalismo, já publicou nove livros, participou de várias
antologias e
recebeu prêmios importantes, como o Guimarães Rosa, o
Cidade de Belo Horizonte,
o Lei Sarney, como autor revelação de
1987, e a Quinta Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, de 1990.
Recebeu o Prêmio Especial do Júri da União Brasileira de Escritores pelo
livro de contos Coração aos Pulos.
O livro "O Vestido" é um dos finalistas do Jabuti/ABL deste ano de
2005.
A revista Veja escreveu que Carlos Herculano é “um dos mais sólidos
talentos de sua geração”.
O crítico Nelson de Oliveira escreveu no Jornal do Brasil que “suas
histórias aprisionam e surpreendem o leitor, pois falam tanto ao
intelecto quanto à sensibilidade, graças ao
delicado jogo de imagens orais e imaginação literária.” A ligação com o
poema de Drummond, o sucesso crítico de suas obras anteriores e a
popularização da história pelo filme certamente transforma O Vestido em
um dos livros mais comentados de 2004.
A partir de uma proposta do cineasta Paulo Thiago que queria filmar o
poema "O Caso do Vestido" de Carlos Drummond de Andrade - o romancista
mineiro Carlos Herculano Lopes escreveu um argumento para o roteiro do
filme, que acabou virando um romance. Baseado em um dos mais famosos e
populares poemas, escrito por Drummond em forma de um diálogo entre mãe
e filhas, exatamente 150 versos distribuídos em 75 estrofes.
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CASO DO VESTIDO
Carlos Drummond Andrade
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Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego? |
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Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou. |
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida? |
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Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando. |
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo! |
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Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca. |
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se. |
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E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, |
e afastou de toda vida,
se fechou, se devorou. |
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Do poema para o romance e do romance para o cinema, Carlos Herculano
Lopes cumpre a
proposta e escreve um romance épico de amor e paixão na Minas Gerais dos
anos 40,
recheando-o com outros personagens e um enredo tão envolvente quanto o
do poema.
Foi, segundo ele, um desafio interessante escrever este romance.
O VESTIDO
Carlos Herculano Lopes
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Minhas Filhas, vocês dizem, esse vestido,
tanta renda, esse segredo! Mas fiquem
sabendo, que a mulher que
o usava, eu nem sei por
onde anda, e se está morta ou viva,
pois há muito não tenho
notícias. Esse vestido, então, é apenas uma lembrança de
sofrimentos
passados, de coisas que hoje já estão a sete palmos enterradas,
e se às vezes voltam, em frias noites de insônia, são apenas
sombras, e nada mais. Dela não guardo
mais ódio, e nem sei se
cheguei a tê-lo, já que a moça, a coitada, não passava de uma
perdida, e em todo o seu ser, hoje eu vejo, só existia o
sofrimento, daquela que apenas pensava, em preencher seu vazio,
mesmo que
para isso, em qualquer cabeça pisasse.
Mas se vocês insistem, e
de tudo querem saber, eu vou então lhes contar, e da
história
desse
vestido............... |
Na obra magistral de Drummond, o poema descritivo “Caso do Vestido” (A
Rosa do Povo, 1945)
é sem dúvida um dos mais populares, ao contar, de forma emocionante, uma
dramática
história de amor e paixão.
Nesta epopéia, construída por Herculano, relata aquela emocionante
história de amor e paixão,
na qual uma mulher ama tanto seu marido que aceita entregá-lo para
outra, se isso o fará feliz.
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Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu, |
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me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe, |
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou, |
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dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, |
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato. |
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Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado, |
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa, |
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que tivesse paciência
e fosse dormir com ele... |
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos. |
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............................................Carlos
Drummond de Andrade |
Carlos Herculano situa a ação do romance nos anos 40, no Vale do
Jequitinhonha, uma das
regiões mais belas e mais pobres do Brasil.
Numa linguagem primorosa, quase metrificada, Carlos Herculano conta a
história da mulher cujo marido, alucinado de paixão, abandona a família
por outra mulher e se envolve numa desvairada andança pelos garimpos de
Minas Gerais.
A narradora, como no poema, é a própria mulher abandonada. O texto
atinge, em alguns
momentos, clímax de enorme emoção.
...........aqui vocês vão se inteirar:
Bárbara foi uma mulher que uma vez, no início de um
mês de setembro, apareceu por aqui. Veio trazida por Fausto,
de quem era conhecida.
E o vosso pai, no dia em que ela chegou, foi com ele, que
era seu primo, buscá-la lá na estação, pois ainda havia o
trem, que só depois eles tiraram. Ela era uma moça bonita,
diferente; vestia saias ousadas, que quase não cobriam os
joelhos; tinha uma boca jeitosa, bem talhada e carnuda, e
também usava cabelos curtos, igual ao que eu, na época, só
tinha muita vontade, mas não coragem de ter. Dizem que
quando desceu do trem, de
óculos escuros e, naquele dia, com uma calça bem justa, que
mais realçava suas formas, todos os olhares se voltaram para
ela, enquanto Fausto e vosso pai pegavam as suas malas. A
sua simpatia, não há como negar, a todos contagiava, e sobre
ela, que também era atriz,
e até em jornais já havia saído, há muito Fausto vinha
falando. Elogiava a sua beleza e
os bons modos, além de outros atributos, que agora não vêm
ao caso e que ela, no tempo certo, quando viu que estava na
hora, soube usar com maestria
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......................................................Carlos
Herculano Lopes |
O vestido de Carlos Herculano bebe totalmente da fonte drummondiana,
mas não abre mão
do
vôo próprio. Para situar a história da mulher que conta às filhas como e
por que entregou o
marido amado nos braços de outra mulher, o escritor
mergulhou no universo que melhor conhece:
o meio rural mineiro,
longínquas paragens onde, nos anos 50, a realidade retrógrada resiste à
entrada em cena de alguma modernidade trazida pelos anos dourados
que
engatinhavam.
Conflitos agrários, disputas de terras e lavras, ranças machistas e
feudais se mesclam
a casos de amor e ciúme, de posse e desejo, de
vingança e violência.
Se no poema de Drummond a voz preponderante era a da mãe que responde às
filhas, no romance crescem e ganham contornos de complexidade, além de
Ângela, protagonista original, também a mulher que veio de longe,
Bárbara, a sedutora fatal, que acaba sucumbindo, igualmente vítima das
armações do amor; o marido, Ulisses, homem apaixonado e visionário, que
sonha enriquecer e se
livrar da pecha de derrotado; o oponente dele, Fausto, namorado de
infância rejeitado por
Ângela, poderoso, calculista, vingativo.
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Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos. |
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Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau. |
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo. |
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E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade. |
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo. |
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Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto, |
só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem. |
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Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam. |
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam. |
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O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, |
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora. |
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| ...............................................Carlos
Drummond de Andrade |
Ao situar personagens e situações num contexto específico, de virada
de década, marcada pelas contradições do momento histórico, Carlos
Herculano ganha, para a trama de amor imaginada por Drummond, uma
contextualização enriquecedora, mormente devido às novas personagens que
surgem e ajudam a dar veracidade àquela história.
Do ponto de vista da linguagem, Herculano consegue mergulhar no tom
poético, até mesmo solene, do poeta, numa linha coerente com os versos
inspiradores, muitos dos quais repetidos quais refrões ou mantras, num
cantochão que anuncia tragédia.
Como em seus romances anteriores, especialmente A dança dos cabelos e
Sombras de julho , o escritor emociona pela habilidade em captar o
sentimento feminino e reproduzi-lo no tom exato.
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Mas dentro do carro, e depois de pedir a ela que falasse
sobre Belo Horizonte e das coisas que estavam acontecendo
por lá, Fausto também já convidava ao vosso pai para uma
recepção que, à noite, em sua casa, ele e sua mãe iriam
oferecer em homenagem à
recém-chegada, que com um sorriso agradeceu, dizendo que não
merecia. Espero você e Ângela, Fausto ainda disse, quando o
deixou aqui na porta da nossa casa, e o vosso pai,
ao se despedir, ganhou um olhar daquela moça, que outra vez,
como havia acontecido na
estação, voltou a deixá-lo encabulado, fazendo-a passar a
mão no bigode, como era seu costume, quando aflito se
sentia. Mas minhas filhas, escutai palavras de minha boca,
pois algumas horas depois, quando havíamos acabado de
almoçar, o vosso pai, fazendo um
certo mistério, mas se mostrando muito atencioso comigo, me
levou até o nosso quarto, onde beijou o meu pescoço, a minha
boca, e após acariciar também os meus cabelos, como até
gosta de fazer, abriu devagar a porta do guarda-roupa e
tirou bem lá do fundo uma
caixa de papelão redonda, que ali, e sem que eu soubesse, há
muitos dias estava guardada...
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...................................................................Carlos
Herculano Lopes |
O Filme
Como qualquer projeto encomendado, O vestido poderia ter resultado
artificial ou forçado, mas não. Retrata o encontro entre duas almas
mineiras de tempos e lugares diversos, irmanados, porém,
pela palavra poética franca e madura. O vestido é mergulho literário
profundo e suave, de
sensações à flor da pele.
Duas meninas descobrem no porão da casa, um velho e lindo vestido de
festa. Querem saber corno foi parar ali, principalmente depois que viram
sua mãe chorando com o mesmo entre as mãos.
Iniciam assim, uma investigação. Ainda mais: por que sempre à mesa, nas
refeições, havia um
prato reservado ao pai, que as havia abandonado há muitos anos?
Ângela, uma bela mulher de 33 anos decide revelar o mistério às filhas e
contar-lhes suas angústias
e sofrimento, que começaram quando ela, ingenuamente, presenteou a outra
mulher o vestido que seu marido havia lhe dado de presente.
Na Festa de Final de Ano, no clube da cidade, ante a sociedade local, a
tal mulher se apresenta exuberante e usando o vestido, seduzindo
definitivamente o marido de Ângela
A história foi filmada por Paulo Thiago, com a atriz Gabriela Duarte no
papel principal
O diretor diz que inicialmente pensou em situar a história nos anos 50,
mas que optou por trazê-la para os dias atuais, preservando, no entanto,
muitos de seus aspectos arcaicos, por isso, boa parte
da história foi filmada na cidade histórica de Sabará, onde a
arquitetura barroca convive com uma modernidade "contaminada" pelo caos
urbano.
Este dado difere do trabalho de Herculano que preferiu manter-se fiel ao
tempo do poema e situar
a ação do romance nos anos 40, no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões
mais belas e mais
pobres do Brasil.
Carlos Herculano Lopes é autor, entre outros, do romance A Dança dos
Cabelos e da novela Sombras de Julho, filmada por Marco Altberg.
Épico e poético
Segundo a professora de literatura da Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG, Ruth Silviano Brandão, que assina o pós-cio do livro (que
contém ainda o poema de Drummond, na
íntegra, para comparações), o romance de Carlos Herculano Lopes tem um
tom “épico”, que se contrapõe e ao mesmo tempo completa o tom “teatral”
do poema ano qual se inspirou.
“O fio narrativo é tenso, a leitura não pode parar, não exatamente pela
expectativa de um desfecho surpreendente, pois já se sabe o que vai
acontecer. O leitor é preso pelo ritmo, pelo tom de
urgência, simétrico à tensão drummondiana, geradora da rapidez e
agilidade dos diálogos, no
registro de um segredo contado num mínimo tempo que antecede à chegada
do pai, diante do
qual a mãe e as filhas têm que se calar”, escreveu a professora, que
continua:
“No início de O vestido, o tom poético está mais próximo de Drummond e a
figura do poeta não se deixa esvanecer, para, depois, pouco a pouco, se
criar um distanciamento, pois outra história se
conta preenchendo as lacunas da primeira. O tom poético não se perde,
apesar de a segunda
história ser mais narrativa: se o poema de Drummond é dramático, com um
cenário teatral, no segundo texto, de Carlos Herculano, predomina a
narrativa, à qual, entretanto, não falta a
modulação poética, que não deixa o leitor esquecer do texto de origem.
Mais exatamente, uma
prosa atravessada por um tom poético, dentro de uma estrutura mais épica
do que teatral com um seu cenário ampliado em relação à primeira.
Rapidamente o tom de segredo, estabelecido num espaço estreito, de
âmbito doméstico, fechado, se abre para um espaço geográfico que abrange
cidades e se estende por uma paisagem rural que remete a uma história
real de lutas de cobiça e poder: exatamente como o cenário de alguns
livros do romancista Carlos Herculano Lopes, como
A Dança dos Cabelos e Sombras de Julho, por exemplo.”
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Clara Arreguy - Correio Braziliense / Data:12/6/2004 |
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