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VIAGEM
A Metapoesia em Cecília Meireles

André Luiz Alves Caldas Amóra (UniverCidade)
Tatiana Alves Soares Caldas (UNESA e UniverCidade)
http://www.filologia.org.br/

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes.

(Cecília Meireles)

A poesia brasileira, na segunda fase do modernismo, vivia seus melhores momentos. Era uma geração despreocupada com as questões imediatistas da geração de 22. Percebe-se, do ponto de vista literário, uma maturidade, pois não há mais a necessidade de escandalizar os meios acadêmico-culturais - tônica da Geração de 22 -, mas de levar adiante
o projeto de liberdade de expressão. Nota-se a presença de versos livres e de sonetos voltados para as questões universais do homem e para os problemas
de uma sociedade capitalista. Verificam-se ainda reflexões sobre o fazer
poético, além do misticismo e da religiosidade.

Nessa fase encontram-se poetas como: Carlos Drummond de Andrade,
com poesias sociais e de combate e reflexões sobre o papel do homem no mundo; Jorge de Lima, com poesias metafóricas e metafísicas; Murilo
Mendes, com poesias surrealistas; Vinícius de Moraes, cuja poesia caminha cada vez mais para
a percepção material da vida, do amor e da mulher, e Cecília Meireles, que envereda pela direção
da reflexão filosófica e existencial, sendo a autora objeto deste estudo.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) é a primeira grande escritora da literatura brasileira e a principal voz feminina de nossa poesia moderna. Sua obra privilegia a riqueza do
léxico, numa linguagem que explora os símbolos e as imagens sugestivas, sobretudo os de forte
apelo sensorial, enveredando inclusive pela musicalidade.

A rigor, Cecília Meireles nunca esteve filiada a nenhum movimento literário. Sua poesia, de
modo geral, filia-se às tradições luso-brasileiras. Apesar disso, suas publicações iniciais -
Espectros (1919), Nunca mais... e poemas dos poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925) - evidenciam certa inclinação para o Simbolismo. Essa tendência é confirmada pela participação
da autora na revista carioca Festa, órgão literário de orientação espiritualista que defendia o universalismo e a preservação de certos valores tradicionais da poesia. Mário de Andrade
enfatiza a sua qualidade artística, mostrando-nos a grande importância dessa poetisa em
nossa literatura:

Ela é desses artistas que tiram seu ouro onde o encontram, escolhendo por si, com rara independência. E seria este o maior traço de sua personalidade, o ecletismo, se ainda não fosse maior o misterioso acerto, dom raro com que ela se conserva sempre dentro da mais íntima e verdadeira poesia. (ANDRADE, 1955: 71)

Do ponto de vista formal, a escritora foi uma das mais habilidosas, apresentando cuidadosa
seleção vocabular. Cultivou uma poesia reflexiva, de fundo filosófico, que abordou, dentre outros, temas como a transitoriedade da vida, a efemeridade do tempo, o amor, o infinito, a natureza, a criação artística. Além disso, a freqüência com que os elementos como o vento, a água, o mar, o ar,
o tempo, o espaço, a solidão e a música aparecem em sua poesia dá a ela um caráter fluido e
etéreo, que confirmam a inclinação neo-simbolista. A atitude de questionamento e a tentativa de compreender o mundo revelam uma postura intuitiva, realizada a partir das próprias experiências, como se percebe em comentário feito pela poetisa:

Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte
que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (GOLDSTEIN, 1982: 3)


Viagem, obra que consagra a autora, além da interpretação de uma trajetória espiritual,
apresenta poemas que refletem sobre o fazer poético, em indagações ainda encontradas em livros posteriores. Utilizando-se de jogos de palavras, metáforas, sinestesias, dentre outras figuras de linguagem, o eu-lírico investiga o processo de criação literária. Tal questão é tematizada em
várias poesias, como se verifica no poema Motivo:


Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

(MEIRELES, 1982: 14)

Na primeira estrofe, a preocupação com a fugacidade do tempo é evidenciada, como se observa
nos dois primeiros versos, com a valorização do instante, que surge como justificativa do cantar
que lhe preenche a vida. Ao afirmar não ser alegre nem triste, mas poeta, o eu-lírico defende o distanciamento entre o sentir e o cantar, à semelhança do fingimento pessoano.

A segunda estrofe reitera a efemeridade e a inconstância do viver. O eu-lírico coloca-se como
irmão das coisas fugidias, e essa inconstância é confirmada pela imagem do vento.

Na estrofe seguinte, à imagem da inconstância segue-se a da dúvida, expressa pela repetição da conjunção alternativa, bem como da condicional. O ou e o se que denotam a indefinição que vitima
o sujeito lírico são intensificados pelo não sei que se repete de forma exaustiva, marcando a interrogação do eu diante da vida. Observe-se ainda que as inquietações do eu-lírico sugerem
uma reflexão sobre o papel da poesia e sobre a recepção da obra de arte pelo público:

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

(Ibidem: 14)

A última estrofe retoma a imagem do cantar, aqui visto como um estado de plenitude. A arte teria
o poder de retratar o instante e, ao mesmo tempo, de eternizá-lo. O eu-lírico associa diferentes aspectos da criação literária, como a eternidade e a liberdade, nas imagens do sangue eterno
e da asa ritmada:

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

(Ibidem: 14)

Os dois últimos versos confirmam a importância do canto, na medida em que mostram um eu que
tem na poesia sua razão de viver. A mudez a que o eu-lírico se refere opõe-se ao canto poético, e
o nada que fecha o poema contrasta com o tudo, relativo ao cantar. Nota-se, portanto, que o fazer poético representa a totalidade, restando somente o vazio quando não houver mais arte.

Um dos aspectos relacionados à metapoesia em Cecília diz respeito à imagem do eu-lírico enquanto poeta. A preocupação quanto ao sentido do ser poeta é evidenciada no poema Discurso:

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:

deixa seu ritmo por onde passa.


Venho de longe e vou para longe:

mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho

e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,

mas houve sempre muitas nuvens.

E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.


Se eu nem sei onde estou,

como posso esperar que algum ouvido me escute?


Ah! se eu nem sei quem sou,

Como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

(MEIRELES, Op. Cit.: 17)

Neste poema, a idéia do instante verificada em Motivo é retomada através de imagens que
traduzem a transitoriedade, como vento e água, e marcas textuais que denotam o instante
espaço-temporal presente - E aqui estou -, como se observa nas duas primeiras estrofes.
Percebe-se a constatação de um eu que se assume como poeta no verbo cantar e na referência
à figura do escritor, também colocado como algo fugidio.

As duas estrofes seguintes relatam a busca incessante, por parte do eu-lírico, do sentido do
canto, expresso inclusive pelo termo discurso, que intitula o poema. O poeta aparece aqui como
um andarilho, e sua busca fracassa justamente em virtude da constante mudança das coisas:

Venho de longe e vou para longe:

mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho

e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,

mas houve sempre muitas nuvens.

E suicidaram-se os operários de Babel.

(Ibidem: 17)

Nota-se que o eu-lírico buscou, no chão e no céu, os sinais de sua trajetória. A conjunção mas demonstra uma frustração do ser poético, quando se depara com a falta de clareza - metaforizada pelas nuvens -, ou com serpentes e ervas que lhe cobriram o caminho, simbolizando a efemeridade das coisas. No último verso, é explicitada a angústia do não-entendimento, presente na imagem
do suicídio dos operários de Babel.

O instante espaço-temporal é novamente explorado na estrofe seguinte. O eu-lírico enfatiza a insistência de seu cantar:

Pois aqui estou, cantando.


Se eu nem sei onde estou,

como posso esperar que algum ouvido me escute?


Ah! se eu nem sei quem sou,

Como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

(Ibidem: 17)

Observa-se, nas duas últimas estrofes, um ser poético sem rumo, em conflito pela incompreensão
do sentido da vida, ou da própria arte. Além da busca ontológica, vê-se a temática da recepção da obra de arte pelo público, expressa pela preocupação com algum ouvido que o escute ou com
alguém que goste dele.

A reflexão sobre a obra de arte e seu público é encontrada também em Herança, poema que
pensa a figura do poeta, bem como sua permanência na posteridade:

Eu vim de infinitos caminhos,

e os meus sonhos choveram lúcido pranto

pelo chão.


Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,

essa vida, que era tão viva, tão fecunda,

porque vinha de um coração?


E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,

do pranto que caiu dos meus olhos passados,

que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

(MEIRELES, op.cit.: 111)

A herança refere-se tanto à preocupação em permanecer, por meio da obra, no futuro, quanto à influência advinda dos estilos passados, sobretudo do Simbolismo, que marcou de forma inegável
a produção ceciliana. Tal influência pode ser mais claramente percebida na primeira estrofe, em
que o eu-lírico mostra o lado cósmico de sua poesia, na imagem dos infinitos caminhos. Há também uma reflexão sobre a linguagem - poesia - no lúcido pranto decorrente dos sonhos, quando o
eu-lírico pensa o processo de criação artística. Note-se que, apesar de ter sua origem nos sonhos,
o pranto é lúcido e se espalha pelo chão, remetendo à transcendência simbolista acrescida de
traços modernistas. A questão do surgimento da obra será explorada na estrofe seguinte, na
qual é reiterada a indagação referente ao fazer poético, ao abordar a inspiração, aqui associada
o sentimento - coração.

A última estrofe enfoca diretamente a temática da influência da obra de arte sobre as gerações futuras. Nesse momento, o eu- lírico trabalha a herança a ser deixada por ele. Ao se referir a experiência, consolo ou prêmio, o eu pensa os diferentes olhares lançados sobre a obra de arte:

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,

do pranto que caiu dos meus olhos passados,

que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

(Ibidem: 111)

Enfim, a preocupação com o fazer poético nas poesias aqui estudadas cultiva uma reflexão, uma atitude de questionamento e a tentativa de compreender o mundo, através da efemeridade do
tempo, da transitoriedade da vida. A poesia de Cecília Meireles, em Viagem, caminha para a
fusão da vida e poesia / natureza e poeta, com um caráter fluido e etéreo, que confirma a sua inclinação neo-simbolista.


BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Mário de. O empalhador de passarinho. 2ª ed.. São Paulo: Martins, 1955.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 1974.

Cecília Meireles. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Norma Seltzer Goldstein & Rita de Cássia Barbosa. (coleção Literatura Comentada). São Paulo: Abril Educação, 1982.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANDT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.

MEIRELES, Cecília. Viagem e Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1982.


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